Pós sim…

Sempre que se fala em casamento a primeira imagem que nos vem à mente é negativa ou de algo que não tem como dar certo. São imagens que refletem as experiências ruins que são fortalecidas pelas estatísticas, as probabilidades e a arte!

Sim, a arte que antes do iluminismo imitava a vida, agora imprime novo jeito de ser para a sociedade através de mídias fortes como televisão e Internet.

Um forma fácil para embasar tal afirmação, está nos tão populares filmes do gênero Comédia Romântica, ou mesmo nos Dramas Românticos. São filmes lindos em fotografias, histórias, elenco, roteiro, música. São marcantes mesmo, a ponto de muita gente tematizar as cerimônias de casamento com suas músicas, cenários, personagens, vestuário…

Não lhe parece curioso que a massacrante maioria dos filmes nesse gênero raramente apresente a vida após o casamento?

Temos uma longa trama se desenrolando com todos ingredientes criativos que nos levam a quase desacreditar que o casal vai ficar junto, então, uma virada espetacular no roteiro nos surpreende com a união dos nossos protagonistas.

Tudo é lindo. Cenas de conquista, de ciúmes, de carinho, de valores morais, ou imorais, mas tudo acaba quando se decide casar! Inacreditável!

Então, todo esse apelo midiático levamos para nosso casamento; quer dizer, o sonho de amor até a porta da igreja. Não há proposta para o “pós sim” …

Protesto contra essa criatividade rasa de Hollywood. Limítrofe.

Existe uma beleza no pós sim, que não é comercial, não é épica, não é arrebatadora e talvez por isso não interesse ao nosso mercado consumista e imediatista.

A vida no casamento está para além destes valores métricos que definem o sucesso.

É possível que você tenha entrado na vida do casamento guiado por esse tipo de medição que aponta performance na conquista, que exige sempre uma surpresa, uma novidade que liberte da rotina, porque a rotina é conceituada como péssima. No entanto, acredito que exista muito mais para se dizer sobre essa vida de casado.

Como estou falando de uma poesia de difícil aceitação, que luta contra dardos incandescentes envenenados, posso apenas prometer tentar dizer algo; quem sabe, essa seja aquela hora em que você vai lendo e lembrando da canção que marcou seu romance. Quem sabe faça muito tempo que você não cantarola.

Play.

Casamento é um estranho modo de se realizar em ver o outro feliz. Felicidade alheia.

É passar perfume, se barbear, se arrumar, se pentear… sei lá, para ficar em casa. Para sentar à mesa, para ler, para assistir algo, para falar. Para conviver.

Existem mistérios a serem descobertos na vida pós sim que só vão aparecer depois que desistimos de ser espetaculares, performáticos, sedutores. São atrações consistentes que nascem junto a uma atitude admirável que tomamos. Pode vir do jeito gentil de tratarmos o garçom que nos atende, uma atitude amorosa com o filho, a paciência afetuosa com os pais dela, ou com o seus, mas tem de ser natural, desista de ser espetacular. Ninguém é de fato. Ninguém consegue ser espetacular o tempo todo (só o Homem Aranha).

Na verdade, seu cônjuge não espera isso.

Talvez você consiga por um tempo abrir a porta para ela, puxar a cadeira, jantar à luz de velas, inclusive fazer o jantar… mas tudo isso vai ser performático se nas coisas pequenas do dia a dia você não agir de acordo com essas cortesias.

Casamento não é rotineiro, nem de longe. Ele possui rotinas. Mas rotinas são boas. Rotinas nos dão chão firme para pisar, nos garantem conhecer a reação e o gosto de quem queremos fazer feliz. Rotinas são treinos para voos mais altos. Rotinas são laboratório de vida real.

É uma pena que não tenham filmes sobre isso.

É uma pena que nossos olhos se encantem mais com as festas, do que com os cafés.

É uma pena que nosso dinheiro seja gasto mais com o vestido branco, do que com as camisetas.

Casamento é a beleza do café da manhã e da camiseta diária, que alimenta e veste gente de verdade, que se esforça muito para ser exatamente isso, gente de verdade, ao menos um para o outro.

Por: Pr. Eduardo Lucena – Casado com Dsa. Eunice Alves, pai da Isabela Lucena. Pastor IAP em Vila Nhocuné – SP. Formado em Teologia pela Teológica Batista de São Paulo e em Filosofia pela UNIFESP

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