Por que não eu? O perigo da cobiça

O desejo dos justos é somente o bem, Mas a expectativa dos perversos é indignação (Provérbios 11:23).

Em 2010, a revista Veja (ed 2184/ano 43/nº39) publicou uma matéria sobre os sentimentos humanos fazendo distinção entre ambição, cobiça e inveja assim: “…Enquanto o ambicioso quer ter um Mercedes igual ao do cunhado e o cobiçador quer o Mercedes do cunhado para ele, o invejoso só quer que o cunhado perca o seu Mercedes, ainda que ele não ganhe nada com isso”. Porém, um sentimento pode levar ao outro se não houver controle.

Qual a diferença de Ambição, Ganância e Cobiça?

Antes de versarmos sobre a cobiça é importante compreender alguns significados nos termos, claro que isso varia de interpretação e tradução do idioma. Mas, basicamente, qual a diferença de Ambição, Ganância e Cobiça?

Ambição: é o desejo de alcançar aquilo que ainda não foi alcançado, normalmente é seguido por trabalho e dedicação (esse aspecto é saudável). Mas, se a ambição for egoísta, pode ser prejudicial, podendo tornar-se patológico. Mas no geral a ambição é positiva (quando os interesses não são egoístas).

Ganância: é o desejo de ter mais, além do necessário, é parecido com a gula. Esta é negativa, pois é motivada pelo descontentamento, e sempre acarretará prejuízos, tanto a si próprio como a outrem, pois ao contrário da ambição, normalmente a pessoa gananciosa não quer se esforçar de modo nenhum, quer sempre queimar etapas.

Cobiça: parecido com a ganância, porém mais grave, pois geralmente é o desejo pelo que pertence a outras pessoas, seja a casa, o cônjuge ou bens, sempre motivado pela insatisfação e ingratidão e às vezes pela inveja, onde o ego é quem governa o raciocínio.

Nesse sentido, a cobiça sempre é considerada pecado pela Bíblia. Este é um pecado que se destaca por sua capacidade de gerar outros pecados, tais como a glutonaria (Lc 21:34), bebedeira (Rm13:13), avareza (Cl 3:5), idolatria (Dt 7:25), roubo (Mq:2.2) e adultério (Pv 6:25). Conquanto o último dos Dez Mandamentos, “Não cobiçarás” (Ex 20:17), se distingue dos demais por que o “coração da lei de Deus” é exposto nele. Haja vista que todos os nove primeiros mandamentos, se infringidos, podem ser vistos e julgados pelas pessoas, mas o pecado da cobiça é de foro íntimo, e nenhum tribunal da terra pode julgá-lo. Podemos afirmar que este pecado é secreto. Logo, a lei de Deus não se preocupa somente com nossas ações. Aliás, só é praticado pelas mãos o que antes fora processado pelo coração.

Este pecado é vicioso e devastador. Pode arruinar empreendimentos, vidas e até famílias inteiras, se não for contido. Na Bíblia mesmo, temos diversos exemplos de pessoas que cobiçaram de diversas formas diferentes. Adão e Eva cobiçaram o fruto proibido. Os irmãos de José cobiçaram a posição de favorito de seu pai. Acã cobiçou uma bela capa babilônica e outros objetos inclusos nos despojos de Jericó. Acabe cobiçou a vinha de Nabote. Amnom cobiçou Tamar. Absalão cobiçou a coroa de seu pai. Ananias e Safira cobiçaram o prestígio das pessoas. Simão, o mágico, cobiçou o poder de cura dos apóstolos. Demas cobiçou “este presente mundo”. Diótrefes cobiçou a preeminência eclesiástica. Quem pode isentar-se de pelo menos uma forma de cobiça destas aqui listadas pela Palavra de Deus? E porque não eu? Seja homem ou mulher, pobre ou rico, independente do objeto de cobiça, todos estamos sujeitos, por isso mesmo, precisamos investir muita atenção aos desejos que ocupam a nossa mente, para não incorrermos neste perigoso mal que incita a prática de tantos outros males, e depois não sofrermos as consequências catastróficas.

Existe um conto chinês que ilustra bem o perigo da cobiça. Conta-se que há muito tempo atrás, um velho lenhador ia todos os dias à montanha para cortar lenha. Dizia-se que o velho era o maior avarento. Um dia, um tigre selvagem avançou sobre ele e saiu carregando-o na boca. O filho do lenhador viu o perigo que ameaçava o pai e saiu correndo para salvá-lo. Levou um facão bem grande e conseguiu alcançar o tigre. O pai não estava muito ferido, porque o tigre mordera as roupas. Quando o filho levantou o facão para o golpe, o pai gritou alarmado: – Não estrague a pele do tigre! Se você matá-lo sem estragar a pele, vai nos render um bom dinheiro. Enquanto o filho hesitava com o facão na mão, ouvindo a instrução do pai, o tigre subitamente saiu correndo pela floresta, carregando o velho cobiçoso e depois o devorou.

Salomão bem disse que “melhor é a vista dos olhos do que o vaguear da cobiça; também isso é vaidade, e desejo vão” (Ec 6:9) e pode nos “devorar”.

Como podemos controlar a cobiça?

Essa não é uma missão muito fácil, pois requer disciplina, determinação, autocontrole e, sobretudo, conhecermos nossos próprios limites. A cobiça é característica da natureza pecaminosa dentro de todo homem e toda mulher, por isso é imprescindível deixarmos o Espírito Santo produzir em nós o domínio próprio (Gl 5.23).

Três conselhos de Paulo, relacionados à nossa mente, certamente podem nos prevenir ou libertar-nos deste terrível pecado interno, se os praticarmos com temor: I. Manter a mente em Cristo (Cl 3:2) – nas coisas do alto, II. Manter a mente com contentamento (1 Tm 6:8) – satisfeito com o que já possui e III. Manter a mente em gratidão – feliz pelo que recebeu de Deus.

Deus nos livra desta perigosa cobiça pela prática de sua Palavra: De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: “Não cobiçarás” (Rm 7:7).

Por Pr. Mateus Silva de Almeida – Pastor Titular na IAP DA VILLA (Piracicaba) e IAP Rio Claro, na Convenção Paulista. Secretário da Junta Regional de Missões | Convenção Paulista – Casado com Karina; Pai de Estevão e Jessé.

 

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