A Tamar sou eu

Já conhece a revista O Clarim? Revista com conteúdo Bíblico de ótimo conteúdo e contextualizado.

Deixe-me apresentar ao leitor uma linda jovem, chama Tamar. Moça de família nobre que seguia os bons costumes. Filha do maior rei da história, irmã de um dos jovens mais belos de Israel. Com um currículo promissor, teve seus sonhos frustrados. Sua história foi manchada pelas garras mais fortes do irmão Amnon, que com ajuda do primo, tramou um estupro simplesmente para satisfazer seu desejo incontrolável de possuí-la. A moça seguiu desolada até o final da vida. Essa história você poder ler na Bíblia em 2 Samuel 13, porém há inúmeras moças ou moços que o cercam como Tamar. Pessoas violadas até as últimas consequências, meninas tocadas indevidamente, mulheres forçadas a ouvir insultos inadequados.

Foi Tamar a menina que acordou com o padrasto abrindo suas pernas. Foi Tamar a garotinha que se enrolava nas cobertas para não ser defraudada pelo pai bêbado. Foi Tamar a pré-adolescente sozinha em casa com o “amigo da família” quase a arrombar sua porta. Foi Tamar a jovem cujo parente teve conversar imorais. Foi Tamar a jovem que acordou com o toque indecente do primo. Foi Tamar a menina com cólicas que confiou no enfermeiro da escola, mas teve suas partes íntimas massageadas. Foi Tamar o menino assediado pela própria babá enquanto seus pais estavam fora. Foi Tamar a pequenina que teve suas calcinhas abaixadas pelo vizinho. Foi Tamar a moça que teve suas coxas apertadas e seu pescoço beijado pelo chefe. Foram Tamar as meninas abusadas pelo inspetor do colégio. Foi Tamar a menina acusada pela própria mãe de se insinuar para o padrasto. Foi Tamar a menininha cujo tio invadiu o banheiro e tentou corrompê-la.

Gostaria que essas histórias não fossem reais, mas são. Meninas julgadas pela mãe, desacreditadas pela sociedade, acusadas de serem mal resolvidas e aumentarem a história, tidas como culpadas. Já não bastasse a dor de sentirem-se acuadas e paralisadas ante seu abusador. Meninas que devido à idade não sabiam o que se passava. Jovens que apanharam por serem “imorais” e “provocarem” o abuso. Pequenas sexualizadas antes da hora. Mulheres que carregam cicatrizes na alma, impedidas de desfrutar a beleza do sexo bom e respeitoso. Mulheres com medo e vergonha de denunciar o abusador. Meninos e meninas afetados na sua identidade sexual.

Outro dia acordei lembrando que fui uma Tamar. Por um bom tempo apaguei a cena da minha memória (nosso cérebro pode apagar cenas traumáticas). Confesso que questionei a Deus o porquê de recordar de algo tão infame. Preferia esquecer-me. Assisti a um vídeo em que a moça dizia se lembrar do líder da igreja que a assediou quando criança. Não dormi relembrando tantos relatos de meninas, moças e mulheres com histórias semelhantes. Chorei. Questionei-me a respeito do que fazer e decidi fazer deste texto uma denúncia.

Acredito que isso faz parte da expansão do Reino de Deus no mundo, um reino de justiça. E encorajo você, querido leitor ou querida leitora, não se cale diante do abusador. Procure ajuda, se preciso. Não permita que este abusador faça isso com mais meninas ou meninos indefesos. Não justifique seu abusador. Quando não gostar de uma fala inconveniente, ou um “elogio” importuno, posicione-se contra.  Não tenha vergonha de expor o que aconteceu, você é uma vítima, não se sinta culpada, você não provocou ou facilitou. Mães e pais, não sejam inocentes, saibam com quem deixam seus filhos. A maioria dos abusos ocorre com pessoas próximas.

Creio em um Deus que cura as feridas que pessoas más fizeram a você. E oro para que possa ser restaurada ou restaurado e tenha sua identidade reconstruída em Deus.

Por: Virgínia Ronchete casada com o pastor Rafael, congrega em Matão psicopedagoga e escritora.