Suicídio infantil, a desnutrição morosa da pós-modernidade

A palavra criança remete-nos à lembrança de barulho, correria, risadas, bagunça e alegria. Mas, por vezes esquecemo-nos de que as crianças são pessoas, e possuem sentimentos, pensamentos e, consequentemente, dúvidas, medos e a possibilidade da angústia existencial, mesmo sem saberem o que é isso. A questão então é: estamos atentos às nossas crianças ou priorizamos a materialidade na correria do dia a dia? Nas igrejas, repetem-se por demais versículos bíblicos que orientam ao castigo físico com a vara (Pv 13.24; 22.15; 23.13-14, etc.).

Como não bastasse, infelizmente, na realidade pós-moderna, sobretudo do Ocidente, boa parte dos adultos cristãos assimilaram a distorção histórica mundana de que, a parentalidade louvável é dar comida, casa, escola, proteção, etc., quando isso, de fato, é a obrigação mínima, inclusive do Estado, garantida em estatuto legal no Brasil.

Contudo, no capítulo 6 da Carta aos Efésios, Paulo descreve algumas instruções essenciais para o relacionamento da família no lar, dentre elas, a afirmação dos pais não oprimirem seus filhos e de criá-los na disciplina e admoestação do Senhor (v.4), o que no grego neotestamentário mais precisamente indica levar ao desenvolvimento pessoal pela prática da justiça – respectivamente à formação da vontade e à do intelecto através do ensino de vida – o lado mais significativo da responsabilidade do papel parental e cuja força motriz é o amor incondicional e não a materialidade.

Mas, por que falar de tudo isso? Porque nos últimos dez anos, segundo a OMS, houve um aumento de 40% dos casos de suicídios e esse dado inclui crianças e pré-adolescentes, de 10 a 14 anos. Crianças de 5 a 9 anos sequer são consideradas nas estatísticas, mas também compõem casos na prática. Constância de tristeza, desinteresse por coisas e situações antes apreciadas, dificuldade de socialização, agressividade, irritabilidade, ansiedade, atração por situações mórbidas, distúrbios de sono, alteração de apetite (excesso ou falta) e impulsividades são alguns dos vários sinalizadores de que algo não está nada bem. Sinais que, por vezes, são interpretados como birra, mimo, “gênio ruim”, mas cujas causas são lideradas por psicopatologias (depressão, bipolaridade, personalidade boderline, esquizofrenia, etc.) não diagnosticadas, genéticas ou não, mas também incluem mães com transtornos de humor; violência doméstica (verbal, física e/ou sexual); dependência química parental; indiferença dos pais para com a criança que se sente desamparada e solitária ou excesso de exigência dos pais na falta de compreensão dos limites etários dos filhos, que os fazem sentirem-se imprestáveis e insuficientes.

Comumente há mais de uma causa combinada que, diante de situações como dificuldade na escola, bullyng, perda de um ente querido, influência de programas de televisão com violência/morte ou notícias sobre um suicídio, podem disparar a ação. Essas pessoas, que chamamos de crianças, cujo próprio Jesus de Nazaré disse serem referência para o alcance do Reino de Deus (Mt 18.2; Mt 19.13;Mc 9.36; Lc 9.47), estão ceifando suas vidas por não conseguirem suportar mais o sofrimento.  Para elas, a vida é uma punição, um castigo, pelo simples fato de existirem. E os adultos, são aqueles que lhes lembram disso ao invés de libertarem-nas.

Engaje-se na luta pela conscientização sobre esse mal, engaje-se na luta de prestar mais atenção às suas crianças e às que estiverem ao seu alcance. Importe-se de fato com elas, ouça-as, olhe-as nos olhos, observe-as, compreenda-as e, acima de tudo, acolha-as em suas dificuldades e oriente-as. O celular, o tablete e o videogame não são capazes de fazerem isso; uma conta bancária abastada também não. Tão pouco isso requer tecnologia ou dinheiro, se você não os tem. É bem mais simples. Basta cumprir com os dois maiores fundamentos da sua fé…

Por: Paula Coatti – teóloga e doutora em Psicologia, autora do livro Discipulado entre Mulheres