O homem de Deus e seu viver

Leituras Básicas: II Rs. 4: 8-10; I Co. 4: 1

Introdução

O homem de Deus é diferente dos demais, não só pela unção especial que recebeu do Senhor, mas também pela natureza do trabalho que realiza, pelas dimensões e exigências desse trabalho, por seu modo de pensar, sentir, ouvir, falar, julgar e agir, em toda a sua maneira de viver. E esta diferença deverá estar de tal modo inserida em seu viver, que possa ser notada e reconhecida por todas as outras pessoas, assim como aconteceu com Eliseu no passado. Analisar o comportamento desse homem, em algumas das situações de sua vida, constitui o propósito do presente comentário. Cumpre-me lembrar, porém, que a expressão homem de Deus, está sendo usada no sentido genérico, significando homem e mulher, desde que estejam comprometidos com Deus e com a Sua obra.

1 . A natureza do seu trabalho

Ao dizer a Pilatos: “o meu reino não é deste mundo”, Jesus deixou claro que a missão que veio cumprir na terra não é de natureza humana. E Lucas descreve o início dessa missão citando as palavras do próprio Salvador, dizendo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, curar os quebrantados do coração, apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor”, Lc. 4: 18 e 19. E o ministro de Cristo nada mais é que um continuador dessa missão.

Aos discípulos que João enviou a Jesus para saber se ele era mesmo o Messias ou se deveriam esperar outro, ele respondeu: “Ide e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho”, Mt. 11: 4 e 5. Esta é também a missão do servo do Senhor. Pois as mesmas tarefas lhe são atribuídas: curar os enfermos, expulsar os demônios, purificar os leprosos, ressuscitar os mortos e pregar o evangelho aos pobres, Mt. 10: 1, 10 e 11.

Colaborar de alguma forma na tarefa de restaurar os degenerados é a missão do homem de Deus; e esta missão não é apenas sobre-humana, é essencialmente divina. Nós somos os homens e mulheres de Deus, e esta é a nossa missão.

2 . Dimensões principais

A missão confiada ao homem de Deus envolve duas dimensões principais: uma horizontal e outra vertical.

a) Dimensão horizontal: Diz respeito às suas relações com os semelhantes. E nesta relação, sua atenção deverá estar centrada no outro. Os textos bíblicos que mais enfatizam essa forma de relacionamento são os seguintes: “…que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor…, como eleitos de Deus, santos, e amados, de entranhas de misericórdia, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros…”, Ef. 4: 1 e 2; Cl. 3: 12 e 13; Portanto, cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para a edificação.

b) Porque também Cristo não agradou a si mesmo…”, Rm. 15: 2 e 3; “…eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar”, I Co. 10 33. Com o objetivo de salvar os outros, o homem de Deus é levado muitas vezes a sacrificar sua vontade, suas preferências, seus interesses, seu bem-estar, sua saúde, sua família e até mesmo sua própria vida.

Isto significa que deverá viver, não apenas em função de si mesmo, mas principalmente em função dos outros: aceitando, compreendendo, suportando, perdoando, agradando, ajudando, ensinando, etc.

c) Dimensão vertical: mede suas relações com Deus: Embora deva doar-se quase sem restrições ao seu semelhante, nunca poderá esquecer-se de que sua missão entre os homens só será bem sucedida enquanto estiver em harmonia com as determinações de Deus. O “agradar aos outros” só será permitido até ao limite em que essa atitude não estiver desagradando ao Senhor.

Paulo, faz a seguinte observação: “Mas como fomos aprovados de Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações”, I Ts. 2: 4. Portanto, viver em boas relações com o semelhante, sem contrariar os propósitos de Deus, é uma posição que exige equilíbrio e sabedoria, mas é assim que deverá comportar-se, todo aquele que representa Deus diante dos homens e os homens diante de Deus.

3 . Imposições do ofício

O papel que desempenha junto à comunidade dos santos, acaba impondo a esse homem algumas condições, dentre as quais destacamos aquelas que mais caracterizam o seu viver: pensar, sentir, ouvir, falar, julgar e agir.

a) Seu modo de pensar: A missão que lhe foi confiada é essencialmente espiritual. E isso implica numa atitude de constante vigilância de sua parte, para evitar que idéias e sentimentos incompatíveis com a natureza da missão que realiza, ocupem espaços em sua mente e distraiam sua atenção. Para evitar que isso aconteça, temos a seguinte recomendação bíblica: “Buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra”, Cl. 3: 1 e 2.

Só o envolvimento em regime permanente com as coisas que dizem respeito a Deus e à Sua obra, lhe garantirá a vitória contra as influências do mal. E agora, mais do que em qualquer outro tempo, deve o servo do Senhor observar esta outra recomendação paulina: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, e, se há alguma outra virtude, e se outro louvor existe, nisso pensai”, Fp. 4: 8.

b) Seu modo de sentir: O “sentir” do ministro deve ser em tudo igual ao “sentir” de Cristo: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação o ser igual a Deus”, Fp. 2: 5 e 6. “Sentir”, neste caso significa mostrar-se sensível às limitações e necessidades do outro e manifestado na firme disposição de ajudar o carente.

A posição do crente, assim como foi a de Cristo antes de vir a este mundo é elevada e honrosa; mas a exemplo de Cristo, em nenhum momento deverá prevalecer-se dessa condição para esboçar qualquer atitude de superioridade por mais insignificante que seja, em relação aos demais fiéis. Ao contrário disso, deve demonstrar abnegação, humildade, compreensão, tolerância, solidariedade, e disposição para perdoar. É evidente que isso não é tarefa fácil; mas precisa acontecer, ainda que gradual e paulatinamente.

Paulo fala de sua própria experiência nesse sentido, dizendo: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”, I Co. 13: 11. Só na condição de adulto, o ministro do Senhor poderá pensar e sentir como Cristo pensa e sente.

c) Sua capacidade de Ouvir: Saber ouvir, é uma das coisas que mais caracterizam o comportamento do servo do Senhor. Isto requer disponibilidade e paciência. Essa nobre virtude precisa ser observada não só nas seções regulares de aconselhamento, mas também nas conversas informais com os membros da família e nas visitas às ovelhas do rebanho. Falando menos e ouvindo mais, o ministro terá o seu trabalho facilitado, pois compreenderá melhor e mais depressa os sentimentos das pessoas

Embora tenha a boca como o seu principal instrumento de trabalho, e do qual deverá fazer uso no lugar e no momento certos, em um bom número de casos é preferível fechá-la, abrindo espaço para ao ouvidos, já que os dois não funcionam muito bem, quando usados ao mesmo tempo. Quando procurado para prestar alguma ajuda aos fiéis, na maioria dos casos, o guia religioso ajuda mais ouvindo do que falando.

d) Seu modo de falar: Saber o que, quando, onde e como falar, é uma virtude digna de elogio em qualquer pessoa, independentemente da função que ela ocupa na liderança da igreja. E se essa pessoa é o homem de Deus, então espera-se que isso seja feito ainda melhor. A fala é uma excelente ferramenta de trabalho; mas precisa ser usada com moderação e disciplina. Paulo recomenda: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como convém responder a cada um… “

“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem”, Cl. 4:6; Ef. 4: 29. Tiago afirma que todos nós tropeçamos em muitas coisas; mas reconhece que, se alguém não tropeça no uso da palavra, esse alguém é perfeito e poderoso para refrear todo o seu corpo, Tg. 2: 2. Portanto, o homem de Deus mais do qualquer outra pessoa, precisa conhecer o lugar, o tempo e o modo certos de falar.

e) Seu modo de julgar: Julgar é uma das atribuições mais delicadas no ministério pastoral. Mas na opinião de Paulo (I Co. 6: 1-6), é direito do ministro religioso julgar as questões litigiosas entre os fiéis. É importante observar, porém, que em se tratando de questões litigiosas, cada um dos litigantes deverá ser ouvido antes, para que exerça o seu direito de defesa, justificando-se ou explicando-se. A culpa ou inocência deverá emergir como resultado das provas levantadas.

O julgamento feito de acordo com os ensinos da Palavra de Deus, evitará que os implicados recorreram à justiça comum para resolverem seus problemas; a igreja mesma os resolverá. Nos casos mais comuns, tais como aquele descrito em Mt. 18: 15-17), Jesus sugere que se dê ao acusado e supostamente culpado, além do direito de ser ouvido, pelo menos três oportunidades, antes que lhe seja aplicada qualquer sentença.

Os critérios são os seguintes: Em primeiro lugar, o ofensor e o ofendido devem tentar, a sós, o reatamento de suas relações e, em caso de insucesso, uma segunda tentativa deverá ser feita, e desta vez, com a ajuda de duas ou três testemunhas. Só com o insucesso desta Segunda tentativa é que o caso deverá ser levado ao Conselho. Em circunstâncias especiais o caso deverá ser arbitrado por um mediador.

Seguindo esse mesmo critério, o infrator terá tempo para refletir, auto-avaliar-se e arrepender-se. E, se ainda assim, o problema não for resolvido, nem por isso o culpado poderá ser tratado com desamor. O espírito de mansidão (Gl.6: 1) com que deverá ser tratado e o respeito à pessoa humana que ele representa, irão ajudá-lo a reencontrar o caminho da reabilitação.

Em nossa legislação eclesiástica, o Conselho representa apenas a primeira instância; cabendo ao acusado a oportunidade de recorrer às demais, sempre que se sentir injustiçado. O que ainda está faltando, no meu modo de entender, é a nomeação de um defensor para cada uma das partes envolvidas, a fim de que o julgamento seja feito com transparência, imparcialidade e justiça.

f) Toda a sua maneira de viver: Dissemos anteriormente que o ministro de Deus ocupa uma e elevada e honrosa posição no seio da comunidade cristã. Essa posição, porém, é medida, não pela soma dos privilégios, mas pela seriedade do compromisso e pela extensão de suas responsabilidades. Lendo as Cartas de Paulo a Timótio e a Tito, temos uma idéia do quanto Deus exige daqueles que O representam na administração de Sua obra:

“…convém que seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; mas hospitaleiro, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante… ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, e tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos”, Tt. 1: 7 e 8; I Tm. 3: 24-26.

Na opinião dos membros da igreja, é exatamente assim que o seu líder precisa ser: honesto, verdadeiro, humilde, cordato, despretensioso, desprovido de ganância, hospitaleiro, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante, manso para com todos, apto para ensinar, sofredor. Um verdadeiro modelo de vida, digno em tudo de ser imitado.

Conclusão

Que o Senhor nos ajude a valorizar cada vez mais a unção especial que dEle recebemos; a compreender cada vez melhor a natureza do trabalho que Ele nos confiou; a harmonizar, sempre que possível, a vontade do Senhor com as necessidades dos nossos semelhantes; a pensar e sentir como Ele pensa e sente; a falar e ouvir com sabedoria; a julgar com imparcialidade e justiça; e a conduzir todo o nosso viver de conformidade com os mais elevados padrões morais e éticos preconizados na Santa Escritura e exemplificados no viver de Cristo.

Quando estas coisas forem vistas em nós, todos aqueles que nos conheceram hão de confessar, tal como fez a mulher sunamita em relação ao profeta Eliseu: “Eis que tenho observado, que este que passa sempre por nós é um santo homem de Deus”; e aqueles que se reunirem ao nosso redor, depois da nossa partida, serão forçados a admitir como o fez no tocante a Cristo, o centurião descrito em Mt. 27: 54: “Verdadeiramente este era filho de Deus”; ou “Na verdade este homem era justo”.

O melhor, porém, é ouvir o próprio Senhor dizer: “Servo bom e fiel, sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei: entra no gozo do teu Senhor”. E mais: “Vinde benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo”.

Dsa. Elisa Elvira de Oliveira Ribas
 IAP de Ji-Paraná/RO
Vice-Diretora da Resofap RondoAcre Sul.