Não se deixe paralisar pela dor

Como lidar com a dor da perda e agir de forma a conseguir prosseguir apesar dela.

A dor da perda é uma das piores dores que existe, porque é a dor da alma, muitas vezes silenciosa e solitária. Se você nunca passou por isso, tente imaginar como pai ou mãe: perder seu filhinho ou sua filhinha; tente imaginar como irmão, perder seu irmãozinho ou irmãzinha. Estas dores são uma realidade, e sofrer pela perda, é preciso; choramos e nos entristecemos porque não fomos feitos para perder ninguém. A morte não era para existir, porém ela entrou no mundo através do pecado (cf. Rm 5:12). A morte dos nossos queridos é invasiva e cruel para a alma.

Em 2013, experimentamos o melhor e o pior de todos os anos da minha vida. Dia 04 de Janeiro Deus ressuscitou nosso bebezinho Estevão, que havia vinte dias sem se desenvolver por conta de uma pré-eclâmpsia (pressão alta na gravidez), que não fora percebida antes do dia do nascimento, quando o ultrassom revelou que o saco gestacional estava se decompondo e o coração do bebê não estava mais batendo. Em resumo, fui impedido de participar desse momento com Karina e nosso bebê, mas ficamos orando com a ajuda da família e da igreja por eles, pedindo ao Senhor para salvar a mãe e o bebê.

Enquanto isso, em um momento de angústia e fé, Karina viveu uma das experiências mais extraordinárias de nossas vidas, sem sentir o Estevão mexer em seu útero desde a noite anterior e com o laudo médico de que retiraria o feto morto, ela recebeu forças do céu e começou a cantar “o nome de Jesus é poderoso” de Adhemar de Campos; quando Karina cantou “o nome de Jesus levanta os mortos”, no mesmo instante, Estevão começou a chutá-la por dentro e não parou até sair, vivo, nos enchendo de esperança. Louvamos a Deus por sua vida. Este foi o melhor dia de todos.

Porém, no mês seguinte, dia 05 de fevereiro de 2013, tivemos o pior dia de todos; meu irmão caçula, Jessé, fora alvejado com 5 tiros no peito, após também orarmos por ele minutos antes, pedindo a Deus que o ajudasse a permanecer nos seus caminhos. Esta dor é tão forte, que mesmo após 6 anos, ainda sentimos no fundo da alma, parece extrair o nosso fôlego. Como lidar com a dor da perda e agir de forma a conseguir prosseguir apesar da perda? Não existe uma resposta simples e nem mágica para essa pergunta.

De lá para cá temos tido uma notícia de óbito na família a cada ano: a filhinha da minha prima no momento do parto, minha avó paterna, a filha caçula do meu tio por causa de um aneurisma, meu avô paterno, a esposa do meu irmão em uma trágica colisão de frente a um caminhão, e no último dia 29 de outubro, a esposa do meu tio faleceu de câncer. O que dizer para ele, para suas três filhas e seu netinho de um aninho? Nestes terríveis momentos de dor, refletimos sobre a vida, e, à luz da Palavra de Deus, constatamos que a vida é como a névoa ao amanhecer: aparece por um pouco e logo se dissipa (Tg 4:14b).

Diante dessa verdade e a despeito da dor, temos aprendido a viver com gratidão ao Deus soberano pelo tempo que pudemos viver juntos antes de perdê-los; entendemos que, em meio à instabilidade da vida, este tempo foi um presente de Deus para nós. Aprendemos a aplicar as palavras de Paulo: Sejam gratos em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus (1 Ts 5:18). Mas isso somente fora possível por causa da ajuda de Deus que nos ensinou a viver em sua total dependência. Pois todo ser humano está sujeito a lidar com a dor da perda, cedo ou tarde, infelizmente, mas felizmente, não precisamos lidar com ela sozinhos.

As palavras do salmista nunca fizeram tanto sentido para minha vida como nestes momentos aflitivos: Deus é o nosso refúgio e nossa força, sempre pronto a nos socorrer em tempos de aflição. Portanto não temeremos quando vierem terremotos e montes desabarem no mar (Sl 46:1-2). A dor da perda é como um terremoto que faz nosso mundo desabar, fazendo-nos sentir como se fossemos submergir nas ondas do desespero. Mas somos lembrados pelo Espírito de Cristo: Meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra! (Sl 121:2).

Muita gente questiona: “onde está Deus no sofrimento?”. Podemos responder com segurança: “Ele está ‘sofrendo’ com a gente”. O Senhor se importa profundamente com a morte de seus fiéis (Sl 116:15); Ele a vê com pesar, ela é preciosa aos seus olhos porque lhe custa caro, é uma perda. Mesmo sabendo que seu amigo Lázaro ressuscitaria logo em seguida pelo poder de Deus, Jesus chorou por sua perda (Jo 11:35). Como homem o Mestre sofreu. Por isso nós também choramos, é bom que enfrentemos o luto com esta postura. Quem não chora sua dor adoece profundamente, e pode perder a motivação para viver.

Nós conseguimos agir, enxugando as lágrimas, levantando a cabeça e prosseguir, por causa de Jesus. Veja o que o escritor aos Hebreus (4:15-16) ensina: Nosso Sumo Sacerdote entende nossas fraquezas, pois enfrentou as mesmas tentações que nós, mas nunca pecou. Assim, aproximemo-nos com toda confiança do trono da graça, onde receberemos misericórdia e encontraremos graça para nos ajudar quando for preciso. E ainda, Davi cantou: Conheces bem todas as minhas angústias, recolhestes minhas lágrimas num jarro e em teu livro registraste cada uma delas (Sl 56:8).

Termino afirmando: “só estou em pé, por causa do Senhor da vida”, Ele é quem me sustenta em meio à dor. Sem Ele, eu nada seria ou faria. Em todo tempo, Deus é bom, mesmo em meio à dor, podemos ver sua bondade, sempre teremos amigos solidários a nossa dor. E jamais podemos esquecer: Jesus Cristo morreu na cruz e ressuscitou dos mortos para acabar com todo sofrimento para sempre. Um dia Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza nem choro, nem dor (Ap 21:4a). Não se deixe paralisar pela dor, não se afaste de Deus no sofrimento, ao contrário, chegue mais perto dEle, e você perceberá sua presença como nunca havia percebido antes. Entregue sua vida aos cuidados do Salvador e receba de presente a sua presença consoladora e tenha esperança em meio à dor.

 

Mateus Silva de Almeida, casado com Karina há 8 anos, pai de Estevão (6 anos) e Jessé Augusto (2 anos). Teólogo e pastor na IAP em Itatiba e Bragança Paulista. Secretário da Junta Regional de Missões.