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“Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.” Já ouviu ou disse esta frase? Agora é hora de olharmos de outra forma este aforismo. Escrevo este texto logo após assistir ao vídeo de um cantor agredindo a ex-mulher na frente do filho de seis anos. E ainda estou perturbada com o vídeo de Luis Felipe Manvailer agredindo a esposa Tatiane Spitzner, em julho último, o mesmo acusado de matá-la. Não preciso fazer esforço para lembrar outros casos, como o assassinato de Eliza Samudio, em 2010. Os episódios de violência contra a mulher são infindáveis, infelizmente. Atualmente, o tema tem se destacado, especialmente após a criação de duas importantes leis.

Uma delas é a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que carrega o nome da mulher que há 35 anos ficou paraplégica devido a um tiro nas costas enquanto dormia. O autor do tiro? O próprio marido, com quem foi casada 23 anos, nos quais sofreu repetidas agressões. A lei foi feita para a proteção da mulher em casos de violência doméstica. Para isso, a lei criou medidas protetivas para afastar o agressor e prevê apoio à mulher, com aconselhamento jurídico e orientação profissional, inclusive abrigo. A Lei Maria da Penha é reconhecida e valorizada internacionalmente.

Outra lei, de 2015, diz respeito ao feminicídio, para os casos em que o crime foi contra a mulher, por razões de ser do sexo feminino, isto é, quando o crime envolve violência doméstica ou familiar e menosprezo ou discriminação à condição mulher.

Esta prevê uma pena maior para este tipo de assassinato, que é considerado qualificado. Lamentavelmente, nem todas as mulheres conhecem seus direitos ou denunciam seus agressores. É bom que se afirme que o feminicídio é evitável, pois a mulher pode contar com as medidas protetivas e orientações que a Lei Maria da Penha propõe.

Talvez alguém pense que a lei contra o feminicídio seja desnecessária e de origem feminista.

Muitos tomam essa discussão como ideológica, pois alegam que a lei privilegia as minorias, pois os homens são realmente as maiores vítimas da violência. Não vou defender o contrário, contudo é importante destacar que os homens não são mortos pelo fato de serem homens. Em segundo lugar, grande parte das mulheres se sentem privadas do seu direito à liberdade por medo de um estupro ou da acuação do agressor. Em terceiro lugar, se esta lei não tivesse o propósito qualificador, muitas vítimas veriam seu agressor rapidamente solto e as ameaçando novamente. Para nós, cristãos, esta não é uma questão ideológica, mas de igualdade e amor ao próximo.

Dependência emocional

Mulher, não se prive do seu direito de reclamar ou pedir ajuda, se algum tipo de violência acontecer com você. Não viva isso de modo recorrente. Não se cale, denuncie seu agressor ou agressora (sim, o algoz pode ser outra mulher), ligue no 180 ou vá a uma delegacia da mulher. Além disso, não negue ajuda a outra mulher que sofre violência. E mesmo que o agressor faça parte da igreja, não se envergonhe por isso, você é vítima e não a responsável pelo crime.

Talvez você já tenha vivido algum tipo de violência e não conseguiu denunciar. Por que muitas mulheres não conseguem buscar ajuda? Alguns estudos indicam que a dependência emocional é um fator determinante. Dependência é um transtorno psicológico, e se define como concessão extrema, desnecessária e permissiva, em que a pessoa se deixa na responsabilidade total do outro. A pessoa se submete à subjugação afetiva, o faz para não perder o afeto do outro, ou por falta de confiança, ou ainda, medo. A pessoa dependente, por exemplo, permite que o outro tome decisões sobre sua vida, reluta em fazer exigências ao outro, sente-se desamparada quando sozinha por medo de incapacidade de se cuidar.

Outras mulheres são dependentes financeiramente; algumas têm a crença equivocada que o marido pode mudar o comportamento agressivo, e não o denunciam para não perder o relacionamento. Outras razões para não denunciar seriam a vergonha, a preocupação com os filhos e o medo da falta de punição ao agressor.

Para muitas dessas mulheres em sofrimento há serviço de ajuda, como garante a Lei Maria da Penha. E seria interessante buscar auxílio psicológico para ter forças e romper com este ciclo de dependência emocional e medo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito através do Centro de Atenção Psicossocial (CAPs). Nas universidades em que existe o curso de Psicologia há atendimento gratuito também, além de outras possibilidades como ONGs e profissionais que atendem por valor mínimo com fins beneficentes.

Subjugação

Agora vamos pensar a respeito do menosprezo e subjugação à mulher. Esta questão é tão antiga quanto cultural. Vale lembrar que em nada tem relação com Deus e nem com a ideia de submissão. Esta forma equivocada de tratar a mulher teve início após a queda, no Éden.

Quando Deus criou homem e mulher, os fez nos mesmos termos, ainda que o modo seja diferente (pó e costela). “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27). Deus os criou com igualdade à sua imagem e deu-lhes as mesmas recomendações no versículo 28 para encher a terra, se multiplicar e dominar os animais. Ao final da criação, Deus percebeu o quanto tudo havia ficado excelente.

Após criar o homem, ficou evidente que no restante da criação não havia correspondente para ele. Então, Deus criou a mulher, correspondente perfeita para o homem. E ele a exalta quando a vê. Deus e o homem deram a ela o devido valor. Relacionamento maravilhoso, não é?! Havia correspondência entre ambos, havia respeito e dignidade. Contudo, o pecado desvirtuou tudo.

Quando lemos o relato das consequências do pecado em Gn 3.14-19, percebemos o quanto foram desastrosas. É importante salientar que este é um cenário de punição. Infelizmente, o padrão de relacionamento entre masculino e feminino, que era saudável, se corrompeu e passou a ser conflituoso.

Observe atentamente a expressão: “Seu desejo será para seu marido, e ele a dominará” (Gn 3.16b). O contexto aqui não tem qualquer relação com a submissão bíblica, que é boa e estabelecida por Deus. A palavra “desejo”, traduzida, tem o significado de desejo de conquistar. A mulher teria o desejo de usurpar a autoridade do marido, iria desqualificá-lo como líder. E o homem, por sua vez, iria governar a mulher. Esta palavra “governar” não tem a ver com liderança familiar, mas com governo monárquico, não um governo participativo, prudente e gentil, mas ditatorial, com dureza, ou seja, com abuso de autoridade.

Isso mudou a forma de se relacionarem, Adão não lideraria de forma humilde e ponderada, e Eva não se submeteria de forma inteligente e voluntária.  Podemos ver outros casos na Bíblia que comprovam esta ideia, como quando Abraão forçou Sara a fingir ser sua irmã para não ser morto e como Raquel sugeriu ao filho enganar o pai, Isaque.

Deus deu a liderança da família ao homem, antes mesmo do pecado. Era uma questão administrativa. Paulo, em Efésios 5.22-24 e Colossenses 3.18-19, ratifica a liderança masculina na família. Isso é diferente de submissão total da mulher em relação aos homens, ou seja, ela pode e deve assumir cargos de liderança em outros contextos. E esta submissão ao marido é definida, deste modo, “como ao Senhor” (Ef 5.22), o que indica que a mulher deve se submeter ao marido como se submete ao Senhor. E recomenda que esta submissão não seja absoluta, pois em situações que o marido a conduz a fazer algo fora da vontade de Deus, ela está desobrigada a submeter-se.

Por sua vez, a liderança do marido segue o padrão: “Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5.25) e “não a tratem com amargura” (Cl 3.19). Amor é tudo o que uma mulher precisa e merece, pois é como aprendeu a ser tratada pelo seu líder maior, Deus. Um marido com esses princípios não trata a mulher com humilhação, violência, egoísmo ou aspereza, mas a trata com dignidade, respeito e considera sua opinião.

Não podemos deixar de levar em conta que a mulher também deve respeito ao marido (Ef 5.33). Ela não deve tomar as rédeas da casa, porque se considera melhor líder, mas deve encorajá-lo a assumir sua liderança. Claro que o descumprimento deste princípio não desqualifica os princípios relacionados aos homens. Um não deixa de cumprir o propósito de Deus porque o outro deixou de obedecer. Obviamente, não falo sobre sofrer violência ou cometê-la.

Jesus e as mulheres

Vamos observar aquele que definiu perfeitamente o padrão de comportamento em relação à mulher, com base no texto de João 4.1-26, a mulher samaritana e João 8.1-11, a mulher pega em adultério. Ambas com moral duvidosa, segundo os padrões cristãos.

Como Jesus as trata? Com dignidade, algo que certamente não haviam recebido de outros homens. E Jesus oferece a elas possibilidade de mudança. À samaritana ofereceu a água que somente ele poderia dar, e à adúltera não condenou, mas a encorajou ao abandono dos pecados. Jesus é o padrão de valorização à mulher. Sigamos seu exemplo.

A você, mulher, que sofre, conte com o apoio e empatia das outras mulheres cristãs à sua volta. E saiba que Jesus a valoriza tanto que não deseja uma vida de sofrimento e amargura nas mãos de quem não demonstra amor em suas ações. Jesus trata você com dignidade. Aos demais, peço que tenham senso de justiça e empatia, como Cristo.

Fonte: Revista O Clarim edição 71

Edição disponível para download: http://bit.ly/clarim71