Leia Mais: Posso ser mãe sem filhos

Sou casada há seis anos e em certo momento desejei ser mãe. Comecei a idealizar a maternidade. Imaginei a bênção de sentir o desenvolvimento de um bebê dentro do meu útero. Comecei a comprar roupinhas, sapatinhos e vi a vovó fazendo as mantinhas de crochê. Sonhei contar ao meu fi lho as histórias bíblicas que tanto amo. Acreditei que meu marido seria o pai mais incrível do mundo, além de um excelente exemplo de caráter para nosso pequeno se espelhar. Investi nesse sonho. Contudo, estou aqui após dois anos sem um bebê nos braços. Gostaria de compartilhar a dor e alegria que experimentei neste tempo e, especialmente, o aprendizado.

No primeiro momento, experimentei a pressão social para a chegada do rebento. “Seus pais merecem ser avós”, “Olha a idade, não demora afinal já está com 30 e uns”, “A família não é completa sem um filho”, “Você não é um cristão completo sem filhos”. Não concordo com nenhum dos motivos pelos quais diziam que eu deveria ter filhos. Diferentemente do que alguns pensam, não acredito ser uma obrigação ter filhos, só o casal sabe se pode e quer tê-los e penso que isso não é um ato de egoísmo. Você tem liberdade para pensar diferente, mas a decisão, inegavelmente, cabe ao casal.

Decisão tomada, partimos para a concretização do sonho. Fui à ginecologista verificar minha saúde. Na tentativa de engravidar, precisei melhorar a alimentação e perder uns quilinhos. Isso não foi tão difícil, o que complicou foi a ansiedade que surgiu com o passar do tempo e a constatação de que mais um mês havia passado e meu sonho não tinha se realizado. Acredito que muitas mulheres sentem essa angústia e tristeza, e, como Ana, desabafam a respeito da dor diante do Senhor (1 Sm 1). Somente após um ano, a ginecologista decidiu investigar meu marido, e foi então que constamos a subinfertilidade.

O meu sofrimento era por não conseguir engravidar mesmo fazendo tudo o que deveria e pelo sentimento de culpa que crescia, como se nada daquilo fosse sufi ciente para gerar um filho. Passavam na minha mente pensamentos e questionamentos, tais como: “Não sou uma pessoa boa para ser mãe”, “Por que pessoas que nem cuidam dos filhos os tiveram?”, “Será que todas minhas expectativas vão ser frustradas?”. Nesse meio tempo, ainda enfrentei a onda do Zika vírus. Não quis arriscar ter um filho com microcefalia e ainda pensei: “Por que justo na minha hora?”. A dificuldade também era porque isso não era algo que estava sob meu controle, e amo controlar tudo ao meu redor. Depois de um tempo, percebi que seria bom aprender a deixar as coisas nas mãos daquele que as controla de fato, ou seja, era uma ótima oportunidade para desenvolver meu caráter segundo o que Deus espera de mim.

Começamos a pensar em adoção, que para mim já era um desejo antigo, mas meu marido ainda não havia se decidido quanto a essa possibilidade. Quando comecei a verbalizar a vontade de adotar, veio uma enxurrada de opiniões. Disseram que eu não queria mudar meu corpo com a gravidez, que toda criança adotada vira rebelde, que é muito demorado o processo, que nunca seria um filho de verdade. Até me disseram que iria me privar de ter um filho de olhos verdes, cor dos olhos do meu marido. É muito difícil, além da dor e culpa que sentia, ter que enfrentar comentários tão deselegantes.

Com essa minha experiência, quero deixar algumas dicas que foram importantes para mim.

1. A pressão social para ter filhos vai existir, portanto, tenha consciência de que ter filho é uma decisão do casal e não um passo que a sociedade impõe.

2. Assim que desejar ter filhos, é importante que o casal busque acompanhamento médico, não apenas a mulher.

3. Procure controlar a ansiedade. Cada casal tem seu tempo. Sonhe e busque pensar no que é bom e não naquilo que a angustia.

4. Procure aprender com o tempo de espera. Pense no que Deus pode melhorar no seu caráter neste tempo, e em que pode se aperfeiçoar para receber com mais maturidade seu tão esperado bebê.

5. A frustração pode aparecer neste momento, além dos questionamentos. Não tenha medo de apresentar ao Senhor seus desabafos.

6. É provável que ouça comentários deselegantes ou passe por situações constrangedoras, contudo, não dê a isso um peso maior do que deve ter. Há pessoas que, simplesmente, não conseguem avaliar o dor que você está passando.

7. Talvez ao longo do processo você constate que não pode ter filhos, não se desespere. Continue confiante que Deus pode fazer um milagre, contudo, avalie a possibilidade de desenvolver a maternidade de outras formas.

Enquanto não tenho um pequeno correndo pela casa, vou cumprindo o chamado de Deus para este momento. Aprendi a desenvolver a maternidade de algumas formas:

1. Posso contribuir financeiramente com alguma criança que faz parte de um projeto social.

2. Posso ajudar financeiramente alguma família que passa por dificuldades.

3. Posso ajudar emocionalmente tantas crianças ou adolescentes que precisam de afeto materno ‒ tenho me sentido encorajada a isso.

4. Considero a adoção uma forma de vivenciar a experiência de adoção que tivemos com Deus. Confesso que Deus é tão bom comigo que aprendi a me resignar, esperar nele. Graças a Deus tenho aprendido a viver em paz. Oro para que minha experiência possa ajudar você, que também vive este dilema.

Por: Virgínia Ronchete na edição 69  da revista O Clarim