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Para a missionária Durvalina, o que Deus faz através de nós é produto do que ele faz em nós.

Professora e diretora do Seminário Evangélico Betel Brasileiro (www.betelbrasileiro.com.br) há 22 anos, a missionária Durvalina Barreto Bezerra não é uma teórica: ela vive com Deus, e seu relato está cheio de experiências que tem com ele. Aos 62 anos, a professora paraibana tem fala tranquila, mas mansamente coloca os pingos nos “is” quando o assunto é o preparo de líderes e de missionários ou a igreja evangélica no Brasil.

Coordenadora geral do Betel, ela cuida do ensino nas 11 extensões para manter o padrão de qualidade e, nos finais de semana, participa de conferências sobre missões e de eventos voltados para as mulheres. Anualmente, atua em seis centros de preparo missionário.

É autora de dois livros: a Missão de Interceder, Editora Descoberta, atualmente esgotado. “Estou trabalhando para fazer a nova edição”, diz a missionária. O segundo título é Ministério Cristão e Espiritualidade, Editora Betânia. “Tem sido usado, para minha surpresa, até no curso de Mestrado. O livro traz uma espiritualidade reflexiva na Palavra de Deus e na vida prática. Porque há muitos que refletem, mas, às vezes, a reflexão fica muito subjetiva. Deus me deu a graça de colocar na prática essa espiritualidade bíblica.”

(Obs.: Leia a íntegra da entrevista no site da Fesofap – www.fesofap.com.br ou no Portal IAP – www.portaliap.com.br)

O Clarim – Na sua visão, o que é Missões? – Durvalina – É cumprir a tarefa que Cristo nos deixou, é cumprir a grande comissão. A igreja precisa entender que ela tem uma missão e que sua missão não se restringe à adoração e à liturgia interna. Porque há muitas igrejas que conservam o cristianismo, mantêm a doutrina pura, mas apenas conservam o ritual. Há outros segmentos da igreja que trabalham com evangelização, outros dão ênfase ao social, mas a missão da igreja é integral. Então, a igreja precisa ter sua liturgia de adoração, deve ter seu trabalho de evangelização, mas também precisa olhar para o mundo, aí entra a transculturalidade da missão. Nem sempre é fácil para a igreja olhar sua missão como um todo. Quando se fala de missão integral, algumas igrejas pensam apenas na questão social e se esquecem de que a missão integral constitui-se de todos os aspectos da missão – o ensino, o social, a evangelização urbana, a expansão do evangelho para todo o mundo. É preciso unir as várias tarefas.

O Clarim – Então, o conceito de Missões ainda é um pouco distorcido? Durvalina – Anos atrás, a Igreja era mais negligente com a ação social. Com as Organizações Não Governamentais, com as Fundações, com o desenvolvimento do País, com o Pacto de Lausanne(*), que foi um marco mundial para a igreja, tudo isso trouxe essa consciência da necessidade da missão integral, mas que acabou sendo compreendida como a missão social. Mas não é apenas isso, pois, como se afirmou em Lausanne, é “o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens.” Eu digo com pesar que eu acho que algumas lideranças evangélicas não têm a visão do todo e, por isso, restringem o ministério da igreja a uma atividade local, com programas e eventos eclesiásticos. Temos que nos lembrar do tegranólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, quando ele diz: que a igreja só é igreja quando ela atua no mundo, vivendo para fora. Qual é a dor do meu coração? É perceber, quando um líder assume uma igreja, que ele tem dificuldade de olhar para aqueles membros que estão a sua volta, com capacidade, com talentos, com dons dados pelo Espírito Santo para fortalecer seu ministério, para a igreja cumprir sua missão global.

Muitos líderes preferem trabalhar sozinhos, não percebem os dons nos membros da igreja. Mas, se a missão é integral, temos que ter muitos membros trabalhando, com variados dons,  dois a Igreja é um corpo constituído de muitos membros e cada um tem sua função.

O Clarim – Como foi o seu chamado por Deus? Durvalina – Eu me converti aos 11 anos, em Campina Grande (PB). Aos 15 anos, eu recebi meu chamado, num retiro espiritual. Eu tive convicção de que Deus estava me dizendo que ele me escolheu, naquele dia, mas eu só fui para o seminário aos 18 anos. Fui estudar em João Pessoa, no internato do Betel Brasileiro, e não voltei mais para casa.

Clarim – Sua família era católica? Durvalina – Meu pai foi frade franciscano, então, eu fui criada dentro da igreja católica. Meu pai deixou a batina não por rebeldia, não porque quis se casar, mas porque ele tinha um vazio interno, ele era uma pessoa com fome de Deus desde jovenzinho. Minha avó o encaminhou para a vida monástica, mas ele ficou decepcionado, insatisfeito, porque ele dizia que haviam mudado o seu nome – ele passou a se chamar Frei Henrique -, mudaram suas vestes, mudou todo o estilo de vida, mas, por dentro ele era o mesmo homem. Então, ele saiu, pela insatisfação, mas continuou católico.

Casou-se com minha mãe, que também era muito católica, e nós fomos criados na igreja católica, eu era filha de Maria. Quando ele se converteu, ele me mostrava o que a Bíblia dizia e me mostrava as decisões dos Concílios da Igreja Romana. Por exemplo, Maria como a mãe de Deus, Maria assunta aos céus, Maria ser chamada de Nossa Senhora, tudo isso ele me mostrou que não existia na Bíblia, que eram resoluções dos Concílios.

Quando meu pai me ensinou a verdade, eu fiquei num conflito tremendo, porque eu era muito apegada à Maria. A igreja católica impõe uma questão mais emocional do que racional. Porque eu entendia que a Bíblia é a verdade, mas eu tinha apego à Maria. Eu cheguei a fazer uma oração, aos 10 anos, eu disse: “Deus, eu entendo o que meu pai está me ensinando e eu quero segui-lo como meu pai está me ensinando, mas permitame que seja com Maria” (risos). Eu me sentia traidora.

Mas, meu pai nos levou à Igreja Congregacional, que ele já frequentava havia cinco anos sozinho, porque minha mãe não havia aceitado. Naquela época, ser crente era uma coisa espúria da sociedade. Em uma noite de Natal eu me converti.

E quando eu cheguei ao Betel, eu tinha uma certeza tão grande de que era ali que Deus me queria, que eu me dediquei de corpo e alma.

Após a minha formatura, trabalhei em Recife por quatro anos, com a Igreja Batista, então, D. Lídia, que era presidente do Betel, convidou-me para voltar para João Pessoa para ensinar, eu tinha 26 anos. Na época, eu fazia Pedagogia, mas eu não me sentia capaz, então o Senhor me falou no texto que relata Jesus diante dos doutores da lei. Então, eu disse para Deus: “Senhor, eu sou igual a uma criança diante dos grandes teólogos, mas eu vou aceitar esse desafio, confiando em Ti”. E Deus me usou com muita graça, os alunos diziam que havia uma revelação da Palavra que ninguém encontrava em livro nenhum, os alunos até hoje testificam da profundidade do ensino em minhas aulas.

O Clarim – E sua vinda para São Paulo, como foi? Durvalina – Eu trabalhei ali por 15 anos. Foi quando o diretor do Betel em São Paulo, que existia havia três anos, pediu para D. Lídia me enviar, que eles estavam precisando de mim. Ele não disse: “envie uma pessoa para ser coordenadora”, mas ele disse: “eu quero que você envie a Durvalina”. Dentro de mim, houve uma paz tão grande, foi como se Deus dissesse: “eu estou neste negócio”. Mas eu não dei a resposta imediatamente, fui orar e Deus confirmou. Isso foi em 1991.

O Clarim – Como a senhora avalia a pregação do evangelho no Brasil? A existência de muitas vertentes é algo positivo? Durvalina – A igreja brasileira tem várias faces e a gente não pode caracterizá-la só por um segmento. A evangelização tomou um novo perfil. Meu pai, por exemplo, quando se converteu, formou um grupo, “Mensageiros do Rei”, que ia nos bares, nas casas, fazia culto ao ar livre. Esse modelo não é usado mais hoje, cada época tem as suas demandas. A evangelização de hoje que realmente traz pessoas a Cristo é aquela realizada nos grupos pequenos. As igrejas que estão trabalhando em pequenos grupos – sem ser o G12, porque eu não aprovo esse modelo – é uma forma de crescimento da igreja com a Palavra e com discipulado.

Agora, em relação a esse crescimento pela mídia, que é fortíssimo hoje no Brasil, eu sinto pesar. A igreja, que poderia alcançar todos os níveis sociais prega um evangelho reducionista restrito a curas, milagres, teologia da prosperidade, busca por valores materiais etc. Então, olhando essa igreja, a gente constata valores que não condizem com o evangelho. As pessoas se tornam evangélicas, mas nem sempre sabem no que crêem, não conhecem a Palavra nem se tornam discípulas de Cristo. Vão à igreja sempre para receber a bênção, sempre para ter uma vantagem pessoal. Mas o evangelho puro de Cristo não é isso, é doação, entrega, renúncia, é vida disciplinada.

O Clarim – O missionário que é devidamente preparado, vai para outro país, depara-se com dificuldades ali e acaba desistindo, é consequência da falta de chamado ou falta de apoio? Durvalina – A Aliança Evangélica Mundial fez pesquisa sobre a volta prematura de missionários e vários fatores foram identificados, como você citou: falta de preparo, falta de apoio no campo, falta de chamado, alguns até, falta de caráter. O que mais me preocupa é que as igrejas querem fazer o envio sozinhas, mas a maioria delas não têm logística, elas não conhecem o campo. Para mim, há outros fatores, como eu citei, mas o que mais preocupa é essa atitude exclusivista da igreja: ela exclui as agências, exclui os seminários, porque ela quer preparar, enviar, cuidar sem ter as ferramentas para o trabalho. Não há uma parceria com as agências missionárias (**), e temos no Brasil algumas com décadas de experiência, por exemplo, a Missão Antioquia tem 35 anos, o próprio Betel tem uma agência missionária há 25 anos, temos missionários em várias partes do mundo. É necessário unir forças para  rabalharmos com excelência no preparo e no envio, assim evitaremos a volta prematura.

O Clarim – O que um missionário deve ter para atender o chamado missionário? Durvalina – Primeiro, ele tem que ser discípulo de Jesus. Quando alguém se dispõe ao campo, ele não pode se ver como uma pessoa especial da igreja, ele não é mais notável que ninguém, ele é apenas um discípulo de Cristo. Daí a necessidade do discipulado, para que ele entenda que o discípulo deve seguir seu Mestre, atendendo a voz do Mestre, andando como o Mestre andou, vivendo como ele viveu. Ser discípulo, para mim, é o ponto fundamental. Segundo, ele precisa ter convicção desse chamado. Ele é um discípulo dentro da igreja que recebeu um chamado para ser um discípulo fora da igreja, para assumir um ministério transcultural.

Depois da convicção, eu diria que ele precisa do preparo. Esse preparo é teológico, missiológico e prático, ele precisa do preparo formal e informal. Agora, há agências missionárias que aceitam vocacionados sem o curso de Teologia. Eles dão um treinamento de três meses e acham que a pessoa está pronta? Eu acho que as agências devem também primar pelo preparo. Uma boa agência missionária deve exigir um curso de, pelo menos, dois anos, caso não seja possível o candidato concluir o bacharelado em Teologia, durante quatro anos.

Ele deve conhecer os princípios da interpretação do texto bíblico, porque se ele vai a outra cultura, ele terá a tarefa de interpretar o texto na cultura daquele povo, o que é muita responsabilidade. Como é possível interpretar o texto, dentro de um contexto cultural diferente do seu, sem uma cosmovisão bíblica, teológica e cultural? Como uma pessoa vai trabalhar no mundo islâmico sem conhecer a cristologia? O preparo é fundamental.

O Clarim – A mulher tem mais facilidade para evangelizar do que o homem? Durvalina – Pela sua constituição psíquica, ela é mais comunicativa. A ciência já comprovou que a mulher usa mais o lado direito do cérebro, responsável pelas emoções. Por isso, ela tem mais facilidade de se relacionar, ela tem mais facilidade de comunicação, portanto, ela tem mais abertura para a evangelização. Basta lembrar que Jesus, quando quis alcançar Samaria, ele se aproximou de uma mulher e a Bíblia diz que ela acabou trazendo a cidade para ouvi-lo.

O Clarim – Qual a importância da mulher buscar conhecimento bíblico para evangelizar? Durvalina – A mulher que é discípula de Jesus sente a responsabilidade de compartilhar a graça que recebeu. Se recebeu de graça, Jesus disse, ofereça de graça. Se ela entende isso – aí está a missão da mulher – que deve ser uma testemunha de Cristo, mesmo que ela não tenha o dom específico de evangelismo de Efésios 4:11, ela deve testemunhar, como todo cristão. Se ela percebe isso, deve entender a necessidade de ter argumentação para essa comunicação.

Para o exercício dos dons e da vocação recebida pelo Senhor, seja qual for a área de atuação, a mulher deve estar preparada. Para isso, precisa buscar o conhecimento e fazer algum curso teológico que a capacite para a missão.

Quando eu pergunto aos alunos do seminário porque eles vieram estudar, a maioria me diz que quer aprender a Palavra porque sente necessidade de ter argumentação na hora da evangelização. A mulher deve entender que o senso da tarefa e o dom não são o bastante, é necessário buscar o conhecimento para se ter argumentação. Pedro diz que devemos estar preparados para responder àqueles que pedem a razão de nossa fé (I Pe 3:15).

O Clarim – Vivemos um tempo de pouca oração e meditação na Palavra. A vida devocional é um desafio – isso reflete na vida de um missionário? Durvalina – Isso reflete impedindo que ele seja bem-sucedido no que faz, que ele tenha um ministério frutífero. Porque se eu não recebo, eu não tenho para dar. É prioritário o tempo de meditação, não apenas para preparar um sermão ou estudo, mas para aprofundar a sua relação com Deus. Sem um relacionamento com Deus pela oração e pela Palavra, ninguém está apto para servir eficientemente. O missionário pode até servir, mas a partir dele mesmo, não a partir do que Deus colocou nele, e há uma grande diferença nisso.

Antes de fazer qualquer tarefa, nós precisamos desenvolver o “ser” em Deus, isso é o que torna o trabalho genuinamente cristão. Eu costumo dizer para os alunos: “você pode cumprir tarefas, você pode cumprir cargos e ofícios, mas você pode não estar cumprindo a vontade de Deus”. Eu baseio esse argumento em João 4:34: “Jesus disselhes:

A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”. O “fazer a vontade” precede o “realizar a obra”. Precisamos entender que o que Deus faz através de nós é produto do que ele faz em nós. Então, o importante não é fazer grandes obras, ter uma agenda muito cheia, mas, sim, produzir a partir do que Deus forma no ser e isso se dá na momento da oração e da meditação na Palavra.

O Clarim – Como as mulheres podem se envolver na proclamação do Evangelho tanto nas igrejas locais como em Missões Internacionais? Durvalina – Eu creio que as mulheres são dotadas dos mesmos dons dos homens, não há diferença para Deus, Paulo afirma isso em Gálatas 3:28. Com os seus dons, ela pode servir tanto na igreja local quanto no campo.

O que ela precisa é ser consciente da missão, ser consciente do dom e preparar-se para o serviço. Os dons são diversos. Se ela tem o dom de evangelista, que ela trabalhe como evangelista, se é o dom de ensino, que ensine na igreja ou no campo missionário, se tem liderança que exerça com sabedoria.

Na história da igreja, a mulher assumiu papéis diferentes dos papéis dos homens. A mulher ficou mais ligada ao desenvolvimento do ensino, da intercessão, do serviço. A liderança, às vezes, restringe o trabalho da mulher, por exemplo, nos cargos de liderança da igreja em geral. Hoje já há uma abertura maior do que antes, mas, mesmo assim, algumas igrejas ainda restringem os papéis, porque alguns interpretam literalmente alguns textos de Paulo (como, por exemplo, que as mulheres devem ficar caladas na igreja), sem levar em conta o contexto cultural. A história nos diz que a força missionária é constituída de um número maior de mulheres, em cada cinco missionários, três são mulheres. Ninguém deve inibir nem proibir a mulher de exercer seus dons e sua vocação.

O Clarim – Fale de uma grande alegria no ministério. Durvalina – Minha maior alegria é  perceber a expressão da Graça no que faço, seja ensinando, seja tomando uma decisão. É perceber a direção de Deus. Por exemplo, nós estamos com o desafio de comprar o imóvel onde o Betel está aqui em São Paulo, porque o proprietário colocou à venda. Fui orar, preocupada, porque não temos dinheiro para comprar e não podemos sair daqui, porque a localização é estratégica. Eu estava naquela luta, perguntando a Deus o que ele iria fazer. Então, Deus me disse: “Eu é que coloquei o Betel aí e esse lugar é um ponto de referência para a Instituição”. Então, confiei que Deus iria prover.

Oramos, jejuamos e pedi ao Senhor a estratégia, porque eu não tinha recursos para fazer nada. Deus me colocou uma pessoa em mente, um pastor, com o qual eu nem tenho relacionamento próximo. Fui falar com ele, sobre o desafio. Ele me ouviu e, ao final, disse: “Vou emprestar o dinheiro”. Claro que vamos pagar, estamos em campanha para isso, mas já sosseguei meu coração, porque Deus sinalizou a sua graça.

Agradeço a revista O Clarim pela oportunidade dessa entrevista, desejo que esse ministério cumpra sua missão e seja graciosamente usado por Deus a cada ano. (*) Documento produzido durante um congresso na Suíça, em 1974, que contou com 2.700 participantes, vindos de diferentes regiões do planeta. Marco que moldou mais de uma geração de líderes da igreja de vários continentes.

(**) Agências missionárias são instituições interdenominacionais que enviam missionários ao campo, preparando-os e amparando-os em suas necessidades.

Fonte: Revista O Clarim – Edição 60