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Há alguns anos, procurei o escritório de uma construtora em minha cidade no intuito de financiar um imóvel. Após apresentar os documentos de comprovação de renda ao corretor, ele me alertou que os valores apresentados me fariam perder o subsídio oferecido pelo governo. Foi então que me sugeriu que eu alterasse as informações do documento para desfrutar do benefício. Embora seja uma prática comum a muitos brasileiros, eu sabia que tal coisa não era conveniente, pois se tratava de um tipo de fraude. Sem titubear e constrangido com a sugestão, respondi que não faria tais alterações e afirmei: “Sou crente!”. Para minha surpresa, a resposta que ouvi foi essa: “Ah! Mas eu também sou crente e acho que não tem nada a ver!”.

Situações semelhantes são vividas no dia a dia. A corrupção, os desvios, as maracutaias, as falsificações, as piratarias, as omissões, as mentiras, estão o tempo todo ao nosso redor: na tentação de colar na prova, nos ímpetos violentos no trânsito, nos excessos indecentes das conversas entre amigos, nos impulsos sexuais desordenados. Diariamente, DE OLHO NA PALAVRA 22 O Clarim www.fesofap.com.br nossa natureza caída é seduzida por padrões morais e éticos que não se conformam àqueles ensinados por Deus em sua Palavra.

Escrevendo aos romanos, o apóstolo Paulo nos oferece um modo de vida centrado no evangelho que nos ajuda a viver segundo o padrão proposto por Jesus Cristo. No capítulo 12 e versículo 2, está escrito: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

Após expor com maestria o poder salvador do evangelho, Paulo começa a orientar os crentes em como viver este evangelho. Ele faz um forte apelo a que apresentem seus corpos como sacrifício a Deus. O objetivo é que os crentes provem da vontade de Deus, triplamente qualificada como boa, agradável e perfeita. Todavia, ele sabe que a proposta da vida cristã implica, não somente em oferecer-se a Deus, mas também rejeitar os valores do mundo. Essa é a sua ideia no versículo mencionado.

Paulo usa um interessante jogo de palavras para os verbos conformar e transformar. Ele ensina que não devemos nos conformar (no grego, ) com este mundo. O verbo tem a ideia de conformar-se ao padrão de outro. Paulo ensina que não devemos imitar o comportamento mundano, sua maneira de pensar e agir. Interessante notar que a palavra em questão, tem sua raiz no termo schema, que significa figura, formato, modelo. Foi essa expressão grega que deu origem à nossa palavra portuguesa “esquema”. De acordo com o dicionário, entre outras coisas, esquema é uma figura que representa, não a forma verdadeira dos objetos, mas as suas relações e funções.

Em contrapartida, o apóstolo também ensina que devemos ser transformados (no grego, metamorphoo) em nosso entendimento. Se você associou o verbo à palavra portuguesa metamorfose, acertou em cheio. Mas o que é de fato interessante é que ambas as palavras gregas, suschematizo e metamorphoo, tratam da forma ou aparência de algo. Ambas denotam forma exterior, hábitos e pensamentos. Contudo, a segunda trata daquilo que é intrínseco e essencial. Lida com aparências que expressam aquilo que é interno.

Ou seja, Paulo está dizendo que a imitação do mundo e seus valores não correspondem ao estilo de vida cristão. A sublime vontade de Deus não poderá ser provada por nós se nos ajustarmos aos “esquemas” desse tempo. As ofertas são sutis e podem parecer inofensivas, mas os efeitos desastrosos. As obras da carne são conhecidas, porém nefastas e sorrateiras (Gálatas 5). Elas degeneram o caráter e fazem adoecer a espiritualidade saudável.

Por isso, Paulo nos estimula a uma transformação mais sólida e permanente, que ocorre de dentro para fora. Essa é a essência do evangelho! Não apenas mudança aparente, mas de toda a nossa natureza. Desse modo, qualquer coisa que não seja honesta, justa, pura, amável, virtuosa, deve ser descartada de nossos pensamentos (Fl 4.8). Como afirmou Warren Wiersbe, “se o mundo controla nossa maneira de pensar, somos conformados, mas se Deus controla nossa maneira de pensar, somos transformados.”

Portanto, deixe o Espírito Santo transformá-la, renovando sua mente segundo o padrão divino. Recuse as ofertas de esquemas fraudulentos, controle os acessos de raiva, preserve sua integridade moral. Santifique suas palavras, enobreça o uso que faz do seu dinheiro, repudie boatos e fofocas dentro e fora das redes sociais, priorize seu relacionamento com Deus. Veja como a vontade de Deus é maravilhosa! Encontre satisfação e bem-estar no favor de Cristo, na comunhão com ele e na vontade dele.

Submeta seus pensamentos em obediência ao Senhor Jesus (2 Co 10.5), oferecendo-se a ele em total devoção. Lembre-se de que nossa forma essencial é a de Cristo, não a deste mundo. Inconformados, viramos as costas para a corrupção desse sistema de coisas. Transformados, nos ajustamos à vontade de Deus e, ao prová-la, percebemos que nenhum “esquema” mundano irá manipular a consciência daquele que está em Cristo.

Por pastor Silvio Gonçalves na revista O Clarim edição 70