Leia Mais: Discipulado entre Mulheres

Muito mais do que ensino bíblico, é uma jornada de vida

Somos quase 3,8 bilhões de mulheres no mundo e a tendência é que esse número aumente. Trabalho,  estudo, filhos, tarefas domésticas, igreja, amigos e parentes; a todos nos dedicamos simplesmente porque somos mulheres!

A natureza feminina criada por Deus manifesta sua imagem e semelhança, sobretudo, na dimensão do cuidado. Sensíveis às necessidades à nossa volta, somos detalhistas, criteriosas e exigentes. Às vezes, somos também críticas, dominadoras e invasivas. Nossas mentes pensam constantemente em tudo o que captamos; e temos a tendência de acreditar que tudo é responsabilidade nossa. Se prestarmos atenção, às vezes, até para Deus queremos dizer o que fazer e como fazer em nossas orações.

Com o pecado e a consequente queda da humanidade, fomos colocadas na condição de subjugação ao masculino, descaracterizado sob a forma do machismo, o que promoveu a redução da valorização da nossa significância ao papel maternal, de suma importância, mas não o único em nossa expressão de feminino. A resposta a isso veio na acentuação de um feminismo de tradição masculinizadora, que também reduz a valorização da nossa significância ao papel de provedoras, sem equilíbrio, tornando-nos a nova forma opressora com necessidade de comandar e mandar em tudo e em todos.

Precisamos, urgentemente, resgatar a proposta da expressão integral do feminino planejada por Deus para o desenvolvimento da humanidade. Nós precisamos disso, e nossos pais, companheiros, filhos e irmãos na fé também precisam. Uma das possibilidades é o discipulado entre mulheres, que normalmente é compreendido como um período de ensino bíblico. Erro básico! O discipulado implica um processo educacional de vida, em que discípula e discipuladora farão uma peregrinação, em busca do crescimento em direção a Cristo, de forma a não serem mais as mesmas.

O compromisso da caminhada no discipulado deve envolver o entendimento de que todo o nosso ser é desafiado a se desenvolver junto a Deus, e participar de uma história que vai além da nossa vida individual. Por isso, é importante compreender a nossa identidade como aquilo que é revelado sobre nós através do nosso agir no dia a dia, no desempenho dos nossos diversos papéis sociais, e que tudo isso pode promover aspectos de semelhança, oposição ou distinção na relação com os outros.

O Evangelho propõe a santificação como possibilidade de autoconhecimento de cada um de nós mediante a ajuda de Deus, na avaliação do que vivemos diariamente, a fim de percebermos se, de fato, os princípios e valores do Reino que declaramos são vividos por nós ou não. É a proposta de renovação da mente como compromisso, como nova criatura (Rm 12.2), mudando o nosso agir para com os outros.

Avaliar como desempenhamos os papéis sociais dentro da família, nosso primeiro grupo de socialização, deve ser o ponto de partida no discipulado.

Da gestação até o início da vida escolar, a família nuclear, e também a família extensa, contêm as pessoas com quem, normalmente, estamos mais próximos e com quem passamos mais tempo. São as pessoas que têm maior influência na construção dos processos de manifestação da nossa identidade, na nossa formação moral e ética, de quem absorvemos mais valores e princípios de vida.

Já no início da constituição da família, a mulher pode aproximar ou afastar o marido dos filhos, por ter sua ligação mais profunda com a prole desde a gestação, e mais facilidade para conciliar diferenças entre as pessoas. Lembremos também do período de amamentação, que é de nutrição física e emocional da criança, portanto, fundamental para a formação de um bom alicerce psíquico, de exercício saudável da razão e do discernimento.

Essa essência integradora da mulher deve se manifestar de forma diferenciada através dos papéis:

  1. a) esposa/parceira de provisão material e afetivo-sexual;
  2. b) mãe/educadora dos filhos sobre o feminino na contrapartida com o masculino, ajudando os filhos a desenvolverem a socialização saudável, na relação eu-outro na pertença (materialidade) e na partilha (compaixão);
  3. c) filha/aprendiz do feminino integrador e da contrapartida com o masculino condutor;
  4. d) avó/conselheira das tradições e do trânsito entre gerações;
  5. e) tia/coeducadora do cooperativismo e da ação solidária entre pares sociais;
  6. f) sobrinha/aprendiz da subordinação e respeito aos direcionamentos instituídos por líderes diretos (pais) e indiretos (tios);
  7. g) neta/aconselhanda na preservação dos aspectos saudáveis da tradição do grupo familiar e na atualização entre gerações.

Assim, cabe à discipuladora e sua discípula tratarem atentamente cada papel para identificar o quanto a discípula está mais ou menos próxima na compreensão e vivência desse ideal. Por isso, é importante que a discipuladora tenha mais idade e vivência de mais papéis sociais na família que sua discípula.

Tomando como exemplo a relação entre Noemi e Rute, na Bíblia, uma discipuladora: conhece a Palavra de Deus; instiga ao aprendizado aqueles que não a conhecem tanto ou sequer conhecem e exemplifica, ao máximo, em suas atitudes a moral e a ética divinas. Com isso, mesmo em meio às dores e aos percalços da vida, não deixa de ser humana, falível e sofredora, e ainda mostra ter equilíbrio emocional, domínio próprio e causa admiração às pessoas à sua volta. Já a discípula consciente: busca aprender com aqueles que vivem a Palavra de Deus e têm domínio de seu conhecimento; submete-se ao ensino da Bíblia e dedica-se, ao máximo, ao exercício do aprendizado da moral e ética divinas.

O processo educativo do discipulado deve promover o crescimento das pessoas em seu discernimento moral (conscientização) e exercício ético (atitude) e a liberdade oferecida pelo Evangelho.

É importante termos isso bem claro porque ainda é comum pessoas entenderem que um processo de ensino-aprendizagem resume-se a “um manda e o outro obedece”, o que gera pessoas imaturas, dependentes e inseguras. O verdadeiro discipulado requer tempo, amor e paciência. É jornada de vida. Assim, escolha bem sua parceira de jornada e jamais se esqueça de que todas seremos sempre discípulas de Cristo.

Fonte: Paula Coatti em a Revista O Clarim edição 71