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O violência do abuso sexual é traumatizante, mas pode ser curada por Aquele que levou sobre si nossas dores

R.F. é uma jovem casada, mãe de um bebê e de uma filha pré-adolescente. Vive um casamento estável, trabalha fora, cuida de sua saúde e aparência, e está ativamente envolvida em sua igreja.

Observando-a, ou mesmo conversando com ela, dificilmente alguém imagina as profundas marcas emocionais que carrega, resultantes de um abuso sexual ocorrido na infância. Quando tinha nove anos de idade foi abordada por um desconhecido a caminho da escola e, depois de violentada, abandonada em um terreno baldio.

Ela é exemplo de uma situação que até há pouco tempo víamos apenas nos jornais e nos programas policialescos de televisão, mas que, infelizmente, acontece cada vez mais perto de nós. A violência sofrida é sempre traumatizante e, independentemente da idade e das circunstâncias em que aconteça, as marcas emocionais costumam ser profundas. No entanto, as situações mais difíceis são também as mais frequentes, em que a vítima conhecia, convivia e confiava em seu algoz.

Nestas, é comum que a vítima sofra com sentimentos contraditórios de ódio pelo ato cometido e de amor pelo agressor, que lhe dá afeto, atenção e até presentes. Por outro lado, pode culpar-se por pensar que contribuiu de alguma forma para o que aconteceu, por não conseguir ter se livrado da situação e, até mesmo, por tê-la interpretado como uma forma de afeto. É comum ainda temer a responsabilidade por algo ruim que possa acontecer com o abusador, como ser preso ou afastado da família. Por isso, quanto mais próximo da vítima for o abusador, mais dor e sofrimento ele causa.

Porém, é importante salientar que prejuízos no desenvolvimento emocional e social da vítima são esperados em qualquer situação, podendo- se enumerar, dentre eles:

  • Perda de confiança nas pessoas, principalmente as do mesmo sexo do abusador
  • Sentimento de inferioridade e de perda no seu valor como pessoa
  • Prejuízo na sexualidade, como desenvolvimento sexual precoce ou aversão ao sexo
  • Agressividade exagerada, comportamento autodestrutivo e suicida
  • Problemas emocionais, como: transtornos de ansiedade, alimentares e de personalidade; depressão e fobias.

Em face disso, a grande questão que se levanta é: Há cura para os traumas decorrentes de um abuso sexual?

A resposta a essa pergunta não é simples. Na situação citada no início deste texto, apesar da dor, a vítima conseguiu construir uma família e desenvolver vínculos afetivos importantes na idade adulta. No entanto, nem sempre é assim, pois como em todas as experiências da vida, cada pessoa vive o trauma do abuso sexual de forma única, dependendo de sua estrutura emocional, do ambiente onde vive e do apoio afetivo que encontra. Assim, algumas reagem com mais facilidade, superando suas dores rapidamente, enquanto outras podem apresentar prejuízos irreparáveis para toda a vida.

De qualquer forma, recuperar-se de um abuso sexual, geralmente, leva tempo. Por isso, a pessoa precisa ser paciente com ela mesma, sabendo que não adianta tentar forçar uma superação, negando seus sentimentos, de raiva, culpa ou tristeza.

Por outro lado, ela deve entender que não precisa carregar esse peso sozinha. É importante procurar o apoio de pessoas próximas, em quem confie. Falar sobre seus sentimentos com alguém da família, um amigo ou um conselheiro pode oferecer um enorme alívio. Em muitas situações, um profissional especializado pode contribuir nesse processo.

A pessoa jamais deve se isolar, pois estar com outras em atividades sociais, envolvendo-se com algo de que gosta, além de fazê-la sentir-se melhor, ocupa a mente, diminui o tempo para lembranças negativas, ideias destrutivas e de autopiedade.

Mesmo com todos os esforços para superação, é natural que surja a pergunta: “Mas, por que isso aconteceu comigo?” Possivelmente essa interrogação permanecerá sem resposta, e insistir nela não mudará o que aconteceu. Sabemos, porém, que depois que o pecado entrou no mundo o ser humano ficou sujeito a todo tipo de dor. No entanto, temos uma certeza incontestável: podemos ter a cura para todas as dores quando as depositamos aos pés de Jesus e cremos em sua Palavra.

Por Romi Campos Schneider de Aquino Revista O Clarim edição 60