Era uma vez um natal…

 

A palavra “natal” é de origem latina e significa “nascimento”. Quando se pergunta a alguém sobre sua “cidade natal”, por exemplo, se quer saber sobre o lugar onde aconteceu o seu nascimento. Em nosso país, quando ouvimos alguém falar esta pa-lavra, automaticamente nos vem à mente a celebração que ocorre no mês de de-zembro de todo ano, mais especificamente no dia 25, que comemora o maior de to-dos os nascimentos: o de Cristo, como homem. Mas os cristãos devem celebrar o nascimento de Cristo? E se devem, esta celebração pode ocorrer no dia 25 de de-zembro?

A nossa resposta a primeira pergunta é sim, os cristãos devem celebrar a Deus pelo nascimento de Cristo. A doutrina da encarnação de Jesus é uma das mais importan-tes doutrinas cristãs e um dos acontecimentos mais fascinantes do evangelho. O próprio Deus se fez gente, se humilhou, tornou-se semelhante aos homens (Fp 2:7). O Verbo se fez carne, e habitou entre nós… (Jo 1:14a). Aquele que criou o mundo, que existia antes do mundo, veio participar da história do mundo como um ser humano.

Como isso foi possível? Tudo começou com sua concepção sobrenatural (cf. Mt 1:18), e depois com seu nascimento. Deus entrou no mundo como um bebê, para se cumprir o que disse o profeta Isaías: a virgem ficará grávida e dará à luz a um filho, e o chamará Emanuel (Is 7:14; Mt 1:23). Quando chegou o tempo de nascer o bebê, Maria e José estavam em Belém da Judeia. Lá nasce o Emanuel (Lc 2:6-7). Seu nas-cimento foi celebrado por um exército celestial, que apareceu louvando a Deus: Gló-ria a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais ele concede seu favor (Lc 2:14). Foi também celebrado pelos pastores que estavam nos campos, próximos ao local onde nasceu o bebê Jesus: Vamos a Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos deu a conhecer (…). Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus (Lc 2:18-20). Além deles, alguns homens sábios, de reinos importantes, também pro-curaram o bebê para adorá-lo (Mt 2:1-2).

E porque tanta festa pelo nascimento deste bebê? Porque ele era o descendente da mulher há milênios esperado, que esmagaria a cabeça do descendente da serpente (Gn 3:15). Porque ele era o descendente de Abraão, por meio do qual todas as famí-lias da terra seriam abençoadas (Gn 12:1-3). Porque ele era o descendente de Davi, que reinaria para sempre, e cujo reinado não teria fim (Lc 2:33). Este bebê foi muito esperado! E veio para que pudéssemos ser salvos (Jo 1:12; 1 Tm 1:15). Jesus veio morar conosco para que, um dia, nós possamos ir morar com Ele! Por isso sua vinda deve, sim, ser celebrada. Devemos louvar a Deus pela decisão de enviar o Filho (Jo 3:16) e louvar o Filho por ter decidido vir e entregar sua vida voluntariamente (Jo 10:17). Jesus veio para morrer por nós, e antes deste momento chegar, ele precisou nascer. Deus poderia tê-lo feito aparecer, com 30 anos, na Palestina, só para morrer por nós. Mas, preferiu o caminho normal de todo ser humano. Por isso, devemos celebrar a Jesus por cada etapa de sua obra!

Quanto à segunda pergunta, isto é, se devemos celebrar o seu nascimento especifi-camente no dia 25 de dezembro, a resposta, num primeiro momento, é não. Jesus não nasceu neste dia. Shedd constatou em seus estudos que o nascimento se deu em outubro, considerando os turnos de sacerdócio de Zacarias, pai de João Batista, primo de Jesus: “Ele nasceu na época da Festa dos Tabernáculos, em outubro. Seu nascimento pode ser calculado assim: Zacarias exercia seu turno em julho (Lc 1:5,8) por ser do turno de Abias, o oitavo turno do ano eclesiástico que começava em mar-ço (1 Cr 24:10). O oitavo turno caía no mês de julho, o mês da concepção de João Batista (Lc 1:23-24), que nasceu, pois, em abril do ano seguinte. Jesus nasceu seis meses mais tarde (Lc 1:26), portanto, em plena Festa dos Tabernáculos, no outono, no mês de outubro.” A Festa dos Tabernáculos, na época de Jesus, relembrava o tempo que Israel viveu em tendas. Curiosamente, neste período, Jesus veio “habitar (lit. armar sua tenda) entre nós” (Jo 1:14)! Pois bem, mesmo assim, tendo uma ideia da época, não podemos ser taxativos no que diz respeito ao dia do nascimento de Jesus. Nenhum de nós sabe!

É possível que nem os cristãos primitivos sabiam o dia em que Jesus nasceu. Eles não se preocuparam tanto com isso, pois o mais importante não era o dia, mas o fato de ele ter nascido. A razão porque a igreja começou a celebrar este “fato” no dia 25 de dezembro, não foi por crer que Jesus nasceu neste dia, mas numa tentati-va de cristianizar uma data em que acontecia uma festa ao Sol Invictus. Os pagãos que estavam se tornando cristãos celebravam uma festa neste dia ao seu “deus”. A igreja quis aproveitar esta data de uma festa pagã celebrada em todos os lugares, e colocar no lugar dela, a celebração a Cristo. Continua a festa, mas muda quem é celebrado. Daí convencionou-se a data. Ao longo do tempo, elementos como boli-nhas, guirlandas, bengalinhas de açúcar, Papai Noel, presentes, foram sendo incor-porados à festa, mas nada tinham a ver com a celebração original, e não tem nada a ver com o nascimento de Cristo. Hoje a festa se secularizou. O que se vê em torno desta data é um comércio efervescente, bebedeiras, etc. A maioria das pessoas nem se lembra do “nascimento” que, em teoria, deveria ser comemorado no natal.

Por fim, então, Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. Ninguém sabe exatamente o dia em que ele nasceu. Mesmo assim, todos os dias, podemos e devemos celebrar e louvar a Deus pelo nascimento de Jesus, inclusive no dia 25 de dezembro. Não con-cordo com o argumento do silêncio da Bíblia, usado para dizer que não podemos comemorar o nascimento de Jesus. A Bíblia silencia quanto a muita coisa que é pra-ticada por nós (só para exemplificar: comemorar aniversário da existência da igreja, por exemplo. Não há nenhum problema em fazer isso. Contudo, não encontramos exemplos bíblicos e nem ordens a este respeito). Concordo com Augustus Nicode-mus, que a “celebração dos anjos e pastores na noite do nascimento de Jesus, bem como a atitude dos magos posteriormente, não são argumentos suficientes para es-tabelecermos cultos natalinos, mas pelo menos mostra que não é errado nos ale-grarmos com o nascimento do Salvador”.

Era uma vez um natal (nascimento)… O maior de todos… Um bebê que nasceu para libertar o homem… Celebremos sempre a Deus por este nascimento!

Pr. Eleilton Willian de Souza Freitas congrega na IAP em Vila Maria e é colaborador do Departamento de Educação Cristã (DEC).

Fonte: Portal IAP