Há paz no vale pra mim?

A partir de 05 de agosto de 2010, às 14:00 horas, o mundo pode acompanhar o drama de 33 operários chilenos que ficaram soterrados a uma profundidade de 700 metros na Mina de San José, no deserto de Atacama, no Chile. O acidente foi provocado pelo desabamento do principal acesso do túnel da mencionada Mina de San José. Somente após 17 dias os trabalhadores foram localizados e começaram a estabelecer contato com a equipe de resgate, através de mensagens, dando conta de que estavam vivos.

“ESTAMOS BIEN EM EL REFUGIO LOS 33”. Em 24 de agosto de 2010, foi divulgado pela imprensa aquela que seria a 1ª comunicação dos mineiros com a superfície, num diálogo travado entre Luis Urzúa e o Ministro de Mineração, Laurence Golborne: “Estamos todos sãos e com fome” (até a 1ª comunicação sobreviveram com 2 colheres de atum e meio copo de leite a cada dois dias).

“Aqui fala o chefe de turno, Luis Urzúa …” À pergunta do Ministro de como estava, respondeu: “Ministro, estamos bem; esperando que nos resgatem. Temos bebido alguma água e comido um pouco do que tinha no abrigo”. Logo após, Urzúa fala: “Ministro, quero fazer uma pergunta. Tínhamos uns companheiros que tentavam escapar (no dia do desabamento) e não sabemos se saíram ou não”. O Ministro respondeu: “Saíram todos ilesos. Não houve nenhuma morte”. Os mineiros presos aplaudiram e gritaram de alegria.

Finalmente, no dia 12 de outubro de 2010, às 23:55 horas local, os trabalhadores começaram a ser resgatados através de uma cápsula estreita que passava por um túnel perfurado para essa finalidade. Patrício Sepúlveda, o último socorrista, voltou à superfície, às 00:33 hora do dia 14 de outubro, 69 dias após o início do drama.            Rememorar a história desses mineiros que ficaram por mais de 2 (dois) meses em baixo do solo, obedecidas as proporções, nos faz refletir a respeito dos “vales” da vida.

Geograficamente falando, vale é uma “depressão alongada cavada por um rio ou geleira”; ou “depressão ou planície entre montes ou na base de um monte.” (Grande Enciclopédia Larousse Cultural, vol 24). Ou seja, vale é um terreno mais baixo. Na visão bíblica, entretanto, “vale”, normalmente, se refere a um período difícil a ser transposto, às provas pelas quais devemos passar nas nossas vidas. Mas, esses “vales” produzem muitas certezas vitais para a nossa jornada e amadurecimento cristão. Elencaremos, apenas, algumas dessas certezas.

 

1ª certeza: Necessariamente, em algum momento de nossas vidas, passaremos por “vale”.

Em João 16:33, “b”, Jesus disse: “No mundo, passais por aflições”. Assim, é certeza que teremos, experimentaremos aflições, angústias, problemas ou dificuldades. Nem Jesus, neste mundo de pecados, foi poupado de passar por “vales”. Ele passou por amar a cada um de nós, não pecou e nem desistiu. Mas, se é certo que as tribulações vêm, também é verdade que venceremos, não na nossa força, mas na força de Jesus, que continua sua fala em João 16:33, “c”: “mas tende bom ânimo; eu venci o mundo”.

É preciso ter em mente que a obediência a Deus não nos livra das tormentas dessa vida. Entretanto, se não formos livres das aflições, temos a certeza de que Ele nos ajudará a atravessá-las e nos dará graça para suportá-las.

2ª certeza: A passagem pelos “vales” da vida é sem prévio agendamento

A tragédia, tristeza ou provação vêm quando menos esperamos. Não há tempo para preparo prévio. Assim como os mineiros chilenos, caímos no “vale” subitamente.

Jó era considerado: “… homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desviava do mal” (Jó 1:1, “b”), mas, mesmo assim, passou pelo “vale”, com a permissão do próprio Deus.  Em meio a toda a dor física e de alma, Jó teve a oportunidade de se aproximar ainda mais de Deus e, de fato, o fez, conforme capítulo 42, versículo 5: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem”.

Devemos continuar confiando em Deus nas situações mais aflitivas e dolorosas, com a certeza de que no “vale” nem sempre caminhamos com nossos pés, mas muitas vezes somos carregados pelos braços do Senhor.

3ª certeza: No “vale” desfrutamos da solidariedade e do amor do próximo

Para o cristão, amor não é opção ou emoção, é um mandamento. A vida cristã deve ser identificada pelo amor cristão. Mesmo sem saber a fé que a maioria professava, os mineiros chilenos, ainda soterrados, deram demonstração de amor ao próximo quando procuraram saber notícias a respeito de seus companheiros que tentaram escapar no dia do desabamento. Ao serem informados que todos eles estavam bem, gritaram de alegria.

Ainda com relação aos mineiros, o segundo operário resgatado foi Mario Sepúlveda Espinace. A BBC Brasil divulgou a seguinte fala dele: “’É incrível que, a 700 metros de altura, e sem nos ver frente a frente, eles conseguiram nos recuperar. (…) Estou muito feliz de estar aqui, nunca tive dúvidas sobre os profissionais que o Chile tem”. Os profissionais do resgate, alguns deles correndo risco de vida, demonstraram amor ao próximo que nem tão próximo estava.

O certo é que nos “vales” da vida nunca estamos sozinhos. Deus, pela sua grande misericórdia e amor sempre prepara alguém para estar ao nosso lado. Que possamos ter sensibilidade para enxergar isso: agradecer quando formos ajudados e sermos ajudadores quando for necessário.

4ª certeza: Os “vales” são transitórios

A situação de dificuldade tem um tempo para começar e um tempo para acabar. Os “vales” não são eternos. Os trabalhadores chilenos soterrados, após 69 (sessenta e nove) dias, viram o seu drama acabar: foram resgatados. Conosco, cristãos, não é diferente. Deus nos resgata dos “vales” dessa vida transitória.

5ª certeza: Nos “vales” somos modelados

Muitas vezes é preciso entrar no vale para Deus trabalhar o nosso caráter, temperamento e nos colocar no seu trilho. Assim, as provações são necessárias na nossa vida para o fortalecimento da nossa fé e para o cumprimento do propósito final de Deus, que consiste em nos dar a salvação (I Pe 1:7 e 8).

De fato, na forma de Deus, a provações produzem pessoas maduras na fé e conhecedoras do Senhor a quem servem.

Conclusão

Ao passar por provações, a tendência de qualquer ser humano é se desesperar ou se revoltar. Todavia, quem tem Deus encara as dificuldades sob uma ótica diferente. Um exemplo a ser citado é o do mineiro chileno citado anteriormente, Mario Sepúlveda Espinace; ao ser retirado da galeria a 700 metros de profundidade, também declarou à BBC: “Estive com Deus e com o diabo. Os dois brigaram e Deus venceu. (…) Em termos de fé, sempre tive fé no Criador.”

Apenas quem conhece Deus é capaz de estar no “vale” e ter as certezas mencionadas, além de encarar as dificuldades com perseverança no coração, pois sabe que o Senhor é soberano, no sentido de ser a fonte da sabedoria e conhecedor de todas as coisas. Deus está no controle da história, quem crê nisso tem forças para passar pelo “vale”.

Que Deus nos ajude a não esfriarmos na fé e falarmos como o salmista Davi: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo” (Sl 23:4).

 Dsa. Margareth Alves Rebouças Covre – 2ª. Secretária da Fesofap, congrega na IAP Vila Medeiros SP