Que tenho eu contigo, capitã Marvel?

Quem tem acompanhado as discussões sobre o filme da heroína da Marvel sabe que tem muito machão mordido com a ideia de uma mulher com poderes especiais e tem muita mulher inocente, achando a presença de uma figura feminina como protagonista, nesse gênero de filme, um grande avanço nas conquistas femininas no território da arte.
Não considero o filme grande coisa, mas é sempre bom vir à tona o debate sobre a situação da mulher. Particularmente, não acho que uma heroína da Marvel possa contribuir nessa questão. Considero a ideia de heroína, em si, mais um desserviço à causa feminina do que o contrário, porque o fundamento do heroísmo, nesse caso, não deixa de ser masculino.

Não, esse tipo de abordagem não ajuda na superação do machismo. Além disso, o ideal da perfeição feminina está ali, por detrás do discurso e da imagem de uma mulher que parece (apenas parece) ser senhora de suas vontades e decisões. Esse ideal de perfeição é o grande trambolho de que toda mulher precisa se livrar para ser quem realmente é. Esse tipo de filme, na verdade, talvez sirva mais para fortalecer os valores que nos oprimem do que para contribuir com a superação desses valores.

Não é esse tipo de heroína que vai contribuir para que nosso valor seja reconhecido e para que sejamos respeitadas, assim como heróis jamais puderam nos ajudar nesse sentido; ao contrário, só contribuíram e ainda contribuem para que homens continuem se iludindo (e nos ferindo) com a ideia de que o que os define é o quanto poder eles têm e o quanto esse poder os torna superiores. Jamais venceremos a batalha pelos nossos direitos com as mesmas armas que nos ferem e nos matam.

 

Eudoxiana Canto Melo é formada em letras, revisora do Departamento de Cultura Cristã
da IAP – Igreja Adventista da Promessa – e autora de estudos das Lições Bíblicas da IAP.
Blog Poeira de Ouro – http://eudoxiana.blogspot.com