Entrevista com a missionária Helen Berhane

Conheça a cristã que passou quase três anos presa num conteiner, por amor a Cristo. Este e outros artigos estão na revista O Clarim, edição 64. Compre agora

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No container com Jesus

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus…” (
Mateus 5:11-12a)

Por Lilian Mendes

“O container não tinha mais de 6 metros, de modo que estávamos bem apertadas lá dentro. Havia 18 pessoas confinadas. Embora eu não fosse claustrofóbica, era difícil permanecer calma em um lugar tão pequeno. Descobrimos rapidamente que o container estava infestado por pulgas e piolhos e, como ficara vazio por um tempo, os parasitas estavam famintos. Era como se meu corpo inteiro estivesse queimando.

Conforme o dia clareava, o container começava a esquentar, até que o calor se tornou quase insuportável. Não tínhamos permissão para usar o banheiro. Quando uma das mulheres pediu para usá-lo, o guarda trouxe por cima dos ombros um balde grande e colocou dentro do container, dando risada.

Quando a noite chegou, a temperatura do container caiu rapidamente. Tivemos que dormir em turnos para garantir que ninguém passasse a noite toda ao lado do ‘balde-banheiro’.”

Essa foi a “rotina” de Helen Berhane, 45 anos, uma cantora gospel confinada num container na Eritreia, durante 32 meses. Seu crime? Pregar o evangelho de Jesus Cristo para pessoas na rua, nas igrejas clandestinas, outras presidiárias e até para os guardas.

Localizada no nordeste africano, a Eritreia é o 12º país em perseguição aos cristãos no mundo, segundo levantamento da Missão Portas Abertas. Segundo Helen, no livro Canção da Liberdade, cerca de 10% dos cristãos eritreus estão presos atualmente, na maior perseguição já vivida no país. Aproximadamente  50% deles já estiveram encarcerados em algum momento da vida.

Torturada muitas vezes, Helen não morreu porque Deus não permitiu. Ela a  sustentou, a libertou e a tem levado a testemunhar por muitos países. Hoje ela vive na Dinamarca, com a filha Eva, 20 anos, mas não se esquece de seus irmãos na fé. Pelo contrário, seu chamado é ser “a voz dos que não podem falar”. Em setembro de 2014, Helen esteve no Brasil e recebeu a revista O Clarim para uma entrevista impactante.

O Clarim – Vivendo num país onde o evangelho é proibido até hoje, como foi sua conversão?

Helen – Quando eu tinha oito anos de idade, eu comecei a frequentar uma igreja. Depois de um tempo, meu pai construiu uma casa, nos mudamos para lá e encontrei outra igreja. Eu comecei a ver muitos milagres, muitas coisas sobrenaturais e, então, até hoje eu continuo seguindo a Jesus Cristo.

O Clarim – Você imaginava que seria perseguida? Não teve medo?

Helen – Eu nunca tive medo. Logo depois da minha conversão, eu comecei a ler muitos livros, muitos testemunhos de pessoas que já tinham passado pela perseguição. Um livro que eu li foi Torturado por Amor a Cristo, de Richard Wurmbrand. Eu usava esse livro para pregar nas igrejas e para prepará-las para a perseguição. Eu nem sei como esse material chegou até mim, mas foi como um preparo para o que eu iria enfrentar.

A perseguição na Eritreia veio de repente: nossa independência foi em 1991 e ninguém imaginava que o novo governo teria esse posicionamento.

O Clarim – Em que circunstâncias você foi presa?

Helen – Eu já havia sido presa algumas vezes por pregar em lugares públicos, mas em delegacias comuns. Eu já era conhecida. Mas a última prisão, que foi a pior, foi quando gravei um CD e fiz um filme, junto com alguns amigos cristãos, intitulado O Evangelho é a Cura para o Mundo. O material fez sucesso, atingiu muitas pessoas pelo país, até lojas seculares o estavam vendendo. Foi então que o governo começou a me seguir. Um dia, em 2004, eu estava ensinando em uma classe de jovens, numa igreja subterrânea – porque o governo já havia fechado todas as igrejas, ele só reconhecia a Igreja Católica, Ortodoxa, Luterana e o Islã -, quando os policiais chegaram e me prenderam.

O Clarim – Em seu livro Canção da Liberdade, você relata como pregou para os soldados o tempo todo que esteve na prisão. O que a motivou a isso, apesar do tratamento ruim que recebia?

Helen – Eu não sei explicar, era algo que vinha de dentro. Era uma necessidade que eu tinha, se eu passava um dia sem pregar para eles, eu sentia uma fome muito grande e quando eu pregava eu sentia um alívio, algo como “missão cumprida”. Era por necessidade que eu compartilhava a Palavra de Deus com eles.

O Clarim – Muitas pessoas têm dificuldade com o perdão, em situações bem mais simples. Como você conseguiu perdoar seus agressores?

Helen – Para mim, essa também é uma grande questão. Eu não sei como, mas Deus me dava muita graça, eu simplesmente olhava para eles e não sentia ódio, porque eles não sabiam o que estavam fazendo, eles não conheciam Jesus.

Se olharmos para a Bíblia, Jesus passou por isso também. Ele curou pessoas, expulsou demônios, no entanto, foi torturado e morto. Mas as pessoas que fizeram isso não sabiam quem ele era. Se ele passou por isso, quem sou eu para não passar? Eu sigo a ele, não sou melhor que ele, então, é natural que eu também passe.

O Clarim – Qual foi o pior período?

Helen – O pior período que eu tive na prisão foi quando eles me colocaram num container com uma mulher que tinha problemas mentais e ela não recebia nenhum tratamento. Isso durou 10 meses. Eu tinha que ficar o tempo todo de olho nela. Ela era grande e forte, então, sempre me agredia, puxava o meu cabelo, batia na parede do container e fazia um barulho enorme, de modo que eu mal conseguia dormir. Às vezes, eu estava comendo e ela chutava minha comida, então, foi uma época em que perdi muito peso. Algumas vezes, os guardas a deixavam do lado de fora do container para passar o dia, eram os momentos em que eu conseguia dormir um pouco. Não dava para estabelecer nenhum relacionamento entre nós duas.

O Clarim – Em algum momento, pensou em desistir do evangelho, negar sua fé, negar a Deus?

Helen – Não! Quando eu era adolescente, eu aprendi que, quando Deus permite uma prova, a gente precisa passar por ela. Se a gente não passar,  não cresce. Para mim, sempre foi muito claro que o cristianismo custava um alto preço. Eu sempre compreendi que Deus controla todas as coisas, então, eu não posso ficar culpando-o pelo que acontece, antes, devo clamar e confiar.

Negar a Jesus nunca passou pela minha cabeça. Algumas pessoas têm uma imagem errada de Deus, acham que ele tem um jeito bravo, que só está disposto a punir e julgar, mas eu sempre tive entendimento de como ele me ama. Para mim, sempre ficou muito claro o Deus de amor que ele é.

O Clarim – Como você lidava com a saudade de sua família, especialmente de sua filha?

Helen – No tempo todo que eu estive presa, só vi minha filha uma única vez, mas eles permitiram para tentar com que eu mudasse de ideia e negasse a Jesus. Minha irmã e minha filha choraram muito nesse dia, ao me verem tão debilitada na prisão. Mas eles viram que eu não cederia por isso, então, eles não permitiram mais a visita delas.

O Clarim – Como ocorreu sua libertação?

Helen – Eu saí em 2006. Eu estava tão machucada pelas agressões, que eles me mandaram para eu morrer em casa. Eu havia sido severamente espancada com um bastão, em meu corpo todo. Quando eu estava na solitária, uma mulher foi colocada comigo por alguns dias e ela também havia sido muito agredida com o bastão, a ponto dela não conseguir mais andar. O corpo dela estava duro como pedra, o útero dela havia sido deslocado para fora e eu precisei encaixá-lo novamente. Então, quando eu vi o bastão do policial e me lembrei do que a mulher havia passado, eu pensei: “Senhor, creio que agora é o fim”.

Eles me bateram muito, atingiram os rins, a ponto de a minha perna esquerda inchar completamente. Meu corpo ficou todo escuro, muito endurecido e eu tinha muito sangramento. O médico da prisão disse: “não há mais o que ser feito”, eu fui dada como morta. Então, me mandaram para morrer em casa, não por misericórdia, mas porque assim seria culpa da minha família.

Apesar de eu ter sido enviada para casa, os guardas estavam o tempo todo ali, fazendo escolta. Isso começou a prejudicar muito minha família também, os  meus familiares não tinham mais sossego, temendo que, se saíssem, eles me levariam de volta para a prisão. Então, não era apenas eu a vigiada, mas toda minha família. Foi quando decidi que precisava fugir.

O Clarim – E como isso se viabilizou?

Helen – Foi um milagre! Nós encontramos pessoas muito boas na imigração, que nos ajudaram. Fiquei dois meses em casa e primeiro, fugi para o Sudão. Depois, fui para a Dinamarca, em outubro de 2007. Minha filha Eva veio depois de cinco meses. Sua travessia da Eritreia para o Sudão levou 50 dias e ela tinha apenas 12 anos, mas Deus cuidou de tudo. Depois, ela veio para Dinamarca e hoje, graças a Deus, estamos juntas.

O Clarim – Você consegue auxiliar seus irmãos em Cristo que continuam na Eritreia?

Helen – Sim. A forma que encontrei para ajudá-los foi viajando pelo mundo, porque assim eu sou a voz dos que não podem falar. Eu também viajo para Etiopia para encontrar esposas e filhos de pastores, cujos maridos ainda estão presos na Eritreia. Também ofereço ajuda a mulheres que, na fuga, foram estupradas na fronteira e têm filhos sem pai. Algumas delas também estiveram presas antes de fugir.

O Clarim – Como Portas Abertas a encontrou?

Helen – Eu conheci Portas Abertas quando eles foram me visitar no Sudão.  Veio uma representante de Portas Abertas com um pastor, e eu me surpreendi porque ela sabia do que eu tinha passado na prisão. Na verdade, o mundo todo sabia, pois cheguei a receber três mil cartas de cristãos. Sou muito grata a Deus pela Portas Abertas, que desenvolve um papel fundamental no suporte aos cristãos perseguidos.

O Clarim – Como nós, mulheres do Brasil, podemos nos envolver com os cristãos que sofrem na Eritreia?

Helen – A maior contribuição é orar. Você também pode ajudar financeiramente para que as pessoas sejam alcançadas.

Mas, além disso, eu creio que os cristãos precisam se posicionar contra a perseguição e entender que os cristãos perseguidos são parte do Corpo de Cristo, nossa família, como está em I Coríntios 12: 26: “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.

A perseguição não acontece só na Eritreia, mas em muitos lugares. A razão de eu ter vindo da Dinamarca até aqui é para alertar que muitos pastores e membros estão sendo mortos nas prisões. O meu papel é despertar a igreja para essa realidade, pois precisamos saber e tomar uma atitude frente ao que está acontecendo.

Sabemos que a perseguição é bíblica, mas os perseguidores extrapolam todos os limites. As formas como eles matam, dizimam famílias inteiras, é algo diabólico. Por isso, precisamos nos posicionar contra isso.

 

Canção da Liberdade

O testemunho completo da Helen Berhane está no livro Canção da Liberdade. Pode ser adquirido no site www.portasabertas.org.br

 

Crédito fotos – Decio Figueiredo