Entrevista com a Missionária Sheila Nunes

img_chamado_radical_01

 

Ms. Scheila conta como deixou tudo no Brasil para plantar esperança no povo de Moçambique (África)

Foi com muita convicção, que ela decidiu largar sua vida no Brasil, na cidade de Barra do Garças (MT), para se mudar para Moçambique (África), na companhia de seu marido, Pr. Almir e do filho caçula, Matheus. Aqui no Brasil, ficaram os filhos Almir Gabriel, Ana Claudia, Juliana e Poliana, de quem eles têm saudades. Mas o chamado de Deus na vida deles foi radical e a resposta também.

Desde 2012, Scheila Regina Silva Nunes e sua família estão em Moçambique como missionários da Igreja Adventista da Promessa, desenvolvendo ações
do Projeto Plantando Esperança: evangelização, socorro aos enfermos, construção de igrejas, iniciativas de sustentabilidade, como o plantio de hortas, cadastramento de crianças para a escola, compra de material escolar e apoio aos missionários.

Mas, sobretudo, amam. Amam a Deus, que os chamou, e amam povo moçambicano, com sua alegria indescritível no louvor a Deus. Para a missionária Scheila (40 anos), a vida não teria sentido sem este chamado do Senhor.

 

Como foi o chamado de Deus para ir a Moçambique?

Scheila: Na verdade, a ideia não surgiu de nós mesmos, mas de Deus, pois fomos surpreendidos quando recebemos a ligação do pastor José Lima (presidente da Convenção da IAP), convidando-nos para participar deste projeto. Há 32 anos, Deus falara com meu esposo, Almir, que tinha uma grande obra para realizar por meio dele. Foram as mesmas palavras que o Pr. Lima expressou! Além disso, certa vez, Deus nos revelou que, da cidade onde morávamos, sairia alimento espiritual para todo o mundo. Ficamos aguardando cumprimento dessa profecia.

Em 2011, quando os pastores Osmar Pedro e Gilberto Coelho, da Junta de Missões, foram à Convenção Mato-grossense apresentar o Projeto Plantando Esperança, eu me apaixonei ao ouvir as experiências que eles nos contaram. Mas nunca pensamos que Deus nos envolveria nessa obra.

O que vocês imaginavam encontrar em Moçambique? O que foi mais difícil nessa adaptação?

Scheila: Na realidade procuramos não criar expectativas, pois nos aconselharam assim. Sabíamos que iríamos encontrar muitas dificuldades, pois no Brasil, temos hábitos saudáveis na alimentação, na higiene e lá há uma carência tremenda de saneamento básico, coleta de lixo, canalização de esgotos, por todo o país. Esse foi o aspecto mais difícil para nossa adaptação. Por outro lado, foi muito fácil nos adaptarmos à maneira alegre, sincera e cativante com que eles prestam culto a Deus. Hoje, posso dizer que estamos plenamente adaptados, pois o cuidado de Deus é impressionante. Ele cuida muito bem de nós, em todo o tempo.

Como foi a recepção dos irmãos moçambicanos?

Scheila: É emocionante até hoje, mesmo tendo passado quase três anos. Quando chegamos nas comunidades, eles nos acolhem muito bem, apesar da timidez. Eles vêm nos presentear, cantam exaltando o nome do nosso grandioso Deus, a alegria com que somos recebidos é contagiante. Penso que todo cristão deveria passar por esta experiência, para dar valor às coisas simples da vida. É emocionante ver que eles não possuem quase nada, em valores materiais, mas ainda assim nos presenteiam com alguma coisa!

Quais adaptações vocês tiveram de fazer, em função das diferenças culturais?

Scheila: Creio que foi o fato de aqui não existir vida noturna, portanto, não temos como realizar cultos à noite, vigílias etc. Aqui se dorme muito cedo e levanta-se muito cedo, o sol se põe às 16h30 e nasce às 4h30. O comércio fecha às 16 horas, as repartições públicas, às 15 horas.

Há muitas crianças em situação miserável, com as quais você lida diariamente. Como fica seu coração de mãe?

Scheila: Às vezes, sinto que sou nada, pois são tantas as necessidades e não consigo realizar 1% do que é necessário fazer. Gostaria de ser um hospital, um supermercado, um parque de diversões, um condomínio com muitas moradias para pre senteá-los, pois meu coração de mãe fica apertado. Mas, então, Deus me diz baixinho que nem seu próprio filho ajudou todos os doentes, todos os necessitados de sua época, então eu me acalmo e me deleito nele.

O que você mais sente saudades do Brasil? O que faz quando a saudade aperta?

Scheila: Além dos meus filhos, familiares e do povo brasileiro, sinto falta dos cultos noturnos de adoração ao nosso Deus. Mas então, recorro à oração, pois sei que é Deus quem me sustenta e conduz.
O Projeto Plantando Esperança prevê ações nas áreas de saúde, sustentabilidade, educação, apoio aos missionários e construção de igrejas, pois não basta anunciar ao povo a Palavra de Deus, quando há escassez em necessidades básicas.

Quais das ações planejadas no Projeto estão sendo desenvolvidas?

Scheila: Creio que nosso maior papel tem sido apoiar os missionários, construir igrejas, encaminhar crianças à escola e melhorar as condições de vida, como a construção de poços artesianos, em comunidades onde não existiam. Dentro do possível, estamos nos esforçando para “plantar esperança” no povo de Moçambique. Em conversas com outros missionários brasileiros que residem aqui há algum tempo, sabemos que leva anos para um projeto começar a colher frutos. Mudar a cultura de um povo que sempre viveu subjugado leva bastante tempo, mas cremos que ajudaremos nesse processo, com a graça de Deus.

Qual foi o momento mais difícil que vocês vivenciaram?

Scheila: Quando cheguei, sentia muita falta da comunhão da igreja, pois, no Brasil, eu morava no interior, onde abraços, colo, beijos fraternos fazem parte do nosso cotidiano e aqui enfrentei um enorme desafio. Era complicado entender porque as pessoas não chegavam perto de mim, mas agora já as conquistei, elas me abraçam, dão beijos, falam e brincam comigo. Antes, tinham receio de me sujar, mas demonstrei que somos iguais.

Conte o testemunho mais impactante até agora.

Scheila: São tantos! Mas um que me deixou bem feliz foi ouvir das irmãs da IAP em Nataleia, ao final de uma programação simples que fizemos, o quanto elas estavam felizes e choravam de alegria. Falavam que nunca haviam participado de algo parecido. Nesta mesma programação, o Almir batizou a Natércia, que tem uma história de milagre muito linda. Em uma de suas visitas ao país, o Pr. Osmar a encontrou, junto com sua mãe, à beira de um rio, pegando água. Conversaram e a mãe contou que a filhinha, Natércia, estava muito doente. A Junta de Missões custeou a consulta médica e os medicamentos para ela. No sábado seguinte, a menina estava curada e a mãe entregou a filha para ser educada na igreja. Foi extraordinário ver o mover de Deus naquele lugar, quando a pequena Natércia foi levada às águas batismais e professou que Jesus Cristo é o Senhor. Também me lembro que, há alguns dias, ouvi uma conversa entre meu filho Matheus e outra jovem da idade dele (21 anos), aí no Brasil. A jovem dizia que ele era muito forte em aceitar este propósito de vir para Moçambique pois, se fosse ela, não suportaria. Ele respondeu de maneira tão simples, mas fiquei impactada pela resposta: “sabe por que você não suportaria? Porque o chamado foi para mim, não para você”.

No que a vivência em Moçambique mudou sua visão sobre Deus e seu Reino?

Scheila: Minha visão sobre Deus não mudou, pois ele era, é e sempre será tudo em minha vida, vivo para ele e por ele. Mas na visão do Reino de Deus, muitos conceitos que eu tinha caíram por terra. Aqui, de fato, estamos colocando em prática o que a Bíblia nos ensina.

De que outras maneiras as mulheres brasileiras podem se envolver no trabalho missionário da IAP em Moçambique, além da adoção educacional das crianças?

Scheila: Uma frase pode responder por mim: “orando, contribuindo e indo”. Precisamos das orações de todos! Sem as contribuições financeiras, não temos como desenvolver as ações previstas pelo Projeto. E também indo! Se as mulheres brasileiras nos visitarem, animarão nossa fé e verão com seus olhos as necessidades e as alegrias de viver em Moçambique.

 

Desejo comprar essa edição de O Clarim.