Leia Mais: Alerta contra o uso excessivo de tecnologia

Acomodado em uma das dezenas de mesas da praça de alimentação de um shopping em São Paulo, observo, enquanto degusto minha refeição, a quantidade de pessoas em volta de mim com um smartphone ou tablet à mão.

Em uma das mesas, conto quatro pessoas – aparentemente dois casais – que não conversam entre si. Os dedos velozes e a mente absorta estão conectados virtualmente a algo ou alguém que não está presente, fisicamente.

Levante a mão quem nunca notou situação semelhante! A cena é comum em espaços públicos, como escolas, supermercados, terminais de ônibus, metrôs e, até mesmo, em salas de aula e no interior de igrejas. De um tempo para cá, não é raro encontrar pessoas da mesma família, vivendo sob o mesmo teto, próximas fisicamente, mas separadas por uma barreira invisível e perigosa: o uso excessivo da tecnologia!

Notícia publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 19 de dezembro de 2014, revela que os brasileiros estão tendo mais acesso à internet e passam cada vez mais tempo conectados. Segundo a reportagem, que apresenta o resultado de um estudo da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, as pessoas ficam on-line até cinco horas por dia, em média.

O que poderia ser considerado como uma boa notícia, pois os números revelam um crescimento no acesso à informação e inserem as pessoas em um mundo praticamente sem fronteiras, acaba sendo também um motivo de preocupação. Exatamente porque o abuso no uso dos dispositivos eletrônicos – cuja lista inclui aparelhos móveis (celulares e notebooks) e os chamados “de mesa” (computadores, videogames e televisão) – pode levar à depressão, estresse e insônia, além da exposição a uma série de outros males.

O alerta é feito pelo professor Cary Cooper, especialista em Psicologia Organizacional e Saúde da Universidade de Lancaster (Inglaterra). Ele diz que os aparelhos oferecem uma saída passiva para um mundo novo, no qual o usuário não precisa interagir com pessoas ou enfrentar problemas, em uma espécie de válvula de escape da realidade. O efeito no curto prazo é percebido por um afastamento das pessoas de atividades sociais e marcado pelo início de um isolamento físico.

No longo prazo, no entanto, é que as consequências mais sérias aparecem: interferência no desempenho escolar, prejuízo à saúde (visão cansada, ansiedade, depressão, insônia, estresse prolongado), dificuldade de concentração, diminuição da capacidade de perceber outras pessoas e situações ao redor, distração ao dirigir etc.

Smartphones, jogos de videogame e computadores podem ser viciantes, segundo especialistas, porque promovem atividades que são psicoativas – que alteram o humor e, muitas vezes, desencadeiam sentimentos agradáveis, razão pela qual desenvolvem dependência em seus usuários, assim como ocorre com quem faz uso de substâncias entorpecentes, como as drogas.

O problema é que muita gente tem dificuldade de encontrar um meio-termo entre o uso moderado e comedido de um recurso que é amplamente útil e plenamente lícito e acaba descambando para o excesso. Como encontrar o equilíbrio? Como saber se você já está adoecendo do “mal dos superconectados ansiosos”?

Checar e-mails e redes sociais obsessivamente, por exemplo, ou não conseguir ficar sem responder instantaneamente a um alerta de celular informando a chegada de uma nova mensagem do Whatsapp são indicativos de que algum nível de prejuízo já se instalou. Conheço gente que acorda, pela manhã, e acessa a internet e as redes sociais antes de qualquer outra atividade, como escovar os dentes e tomar café. E também pessoas que passam horas jogando videogame ou assistindo TV. Deixar de realizar qualquer uma dessas atividades e se sentir mal é sinal de que há um processo de dependência se instalando.

Responda rápido: quantas vezes seu celular “apitou” enquanto você lia este texto? Parou para ler ou responder as mensagens? Seria capaz de deixar o aparelho desligado por um dia inteiro sem se sentir incomodada? A resposta a essas perguntas simples pode ajudá-la a identificar se está fazendo o uso equilibrado da tecnologia.

Pouco antes de terminar minha refeição, levanto os olhos e vejo no alto da parede dos fundos de uma loja de fastfood um objeto curioso, semelhante a uma caixa de metal com uma espécie de grelha, por meio da qual enxergo uma luz atraente. Trata-se de uma armadilha! Uma engenhoca que emite uma luz ultravioleta e atrai insetos voadores fotossensíveis, tais como moscas, varejeiras, abelhas, mariposas e pernilongos. Eles voam inocentes em direção à luz, sem perceber o perigo. Ao entrarem em contato com a grade eletrificada são atingidos por uma descarga elétrica fatal.

A estranha visão soou a mim como uma advertência. Fez lembrar que os distraídos também podem encontrar na tecnologia sua própria armadilha de luz. O brilho das telas atrai e entorpece os sentidos, causando vício e destruição. Para fugir dessa arapuca, é necessária uma boa dose de equilíbrio e temperança. “Achaste mel? Come só o que te basta; para que porventura não te fartes dele, e o venhas a vomitar” (Pv 25.16).

Por: Marco Murta na edição 64 da revista O Clarim