Leia Mais: Toda mulher é igual?

Desde que nascemos, passamos a ser ensinadas a nos comportar de determinadas maneiras e a avaliar o comportamento dos outros a partir do que nos é ensinado. Recebemos da sociedade em que vivemos uma “cartilha” sobre o que é ser uma menina e o que é ser uma mulher. Essa “cartilha” diz, por exemplo, que devemos rir das muito gordas e das muito magras, das muito altas e das muito baixas, das que se vestem “mal”, das que não cuidam do cabelo ou das unhas. Mas, convido você a refletir sobre outras afirmações a respeito do comportamento feminino, também presentes nessa “cartilha” das expectativas sociais.

Essas afirmações e crenças incomodam não somente a mim, mas a todas que veem sua vida dificultada por essas generalizações. Entre as que mais me incomodam ouvir está a clássica: “Mulher fala demais”. Não precisamos ir muito longe para constatar o engano dessa afirmação.

Percebo tantas mulheres cautelosas e sábias no falar, que mais ouvem do que falam! Por isso, penso que vale a pena desconfiar dessa generalização, porque, de fato, nem toda mulher quer ou precisa falar demais, mesmo sendo linguisticamente mais habilitada.

Outro incômodo é ouvir constantemente: “Mulher é emotiva”, geralmente usada para dizer que as mulheres não conseguem controlar seus sentimentos ou que tentam manipular os sentimentos dos outros através do choro. Cabe, aqui, a mesma desconfiança em relação à primeira afirmação, pois tanto homens quanto mulheres são capazes de controlar suas emoções ou de se beneficiar delas, de usar o bom senso, em vez de manipular os sentimentos alheios.

Nenhuma mulher deveria se sentir na obrigação de assumir comportamentos que não são seus apenas para corresponder à expectativa da sociedade. Há, ainda, duas afirmações igualmente incômodas, que, na mesma medida das demais, representam o peso imposto à mulher: “Mulher não tem senso de direção”; “Mulher é consumista, não se contém diante de uma vitrine”. Já está provado que mulheres se direcionam espacialmente de maneira diferente dos homens; mas dizer que elas não têm senso de direção é contribuir para a continuação de tratamentos injustos.

É com base nessa afirmação que muitos ainda acreditam, por exemplo, que mulheres são péssimas condutoras, apesar de as estatísticas de trânsito mostrarem exatamente o contrário. Quanto ao fato de as mulheres serem consideradas consumistas, quero lembrar que, além de não ser um “comportamento” de toda mulher, o consumismo, já considerado uma doença do nosso tempo, não é um “comportamento” exclusivo da mulher.

Uma vez que vivemos em um sistema injusto, que estima o valor de homens e mulheres pelo seu potencial de consumo, todos os que nele acreditam e confiam, estão sujeitos a cair na armadilha do consumismo. É importante considerar também que, para a perpetuação desse sistema e de todo o modelo social que o sustenta, é conveniente que as mulheres, maioria da população, acreditem que nasceram com alguma tendência inata para o consumo e que jamais sejam consideradas confiáveis para a administração de finanças.

Essas generalizações, disseminadas como verdades absolutas, têm como função manter a mulher na imaturidade e na superficialidade, sem condições de assumir sua identidade e sua vocação. Vista e entendida a partir dessas mentiras, ela jamais será considerada confiável e jamais será respeitada como pessoa competente para estar à frente de uma grande missão, de uma grande causa, de um grande negócio ou de um governo.

Mas, ainda que as mulheres sejam meu alvo principal, não ignoro o fato de que os homens também lidam com o peso das afirmações generalizadoras de uma sociedade que lhes ensina a acreditar que são capazes de liderar nações ou grandes instituições e, ao mesmo tempo, incapazes de controlar seus impulsos, cuidar de um recém-nascido, lembrar-se de datas importantes, prestar atenção aos detalhes e dedicar-se à família.

E essas são só algumas “verdades” ensinadas e acreditadas sobre eles. A vida tem mostrado que sempre houve e haverá mulheres e homens que falam demais, que falam de menos, que se perdem em suas emoções, que as controlam, que se dedicam à família, que a negligenciam, que foram chamados por Deus para liderar, que foram chamados para cooperar com quem lidera, que gastam além da conta, que usam o dinheiro de forma consciente etc. Basta prestar atenção nas pessoas, em seus talentos, limitações, histórias de vida e capacidade de driblar as expectativas sociais e você verá como é impossível, a partir de rótulos, fazer justiça a homens e mulheres.

Meu convite inicial foi para que você refletisse na forma como as mulheres ainda são vistas.  Procurei tratar de maneira bem sucinta uma ínfima parte do que eu e você ouvimos e vivemos em nosso cotidiano, apenas para lembrar que essas e outras “verdades” sobre o comportamento feminino não precisam e não devem ser aceitas e disseminadas, em virtude dos prejuízos que têm causado. Uma só verdade, que vale tanto para mulheres quanto para homens, precisa ser levada em conta, na nossa tentativa de entendê-los: cada ser humano tem condições de superar o que o diminui da sua condição de imagem de Deus. Por isso mesmo, não lhe cabem rótulos e afirmações generalizadoras; também por isso, a vida é dinâmica e desafiadora para quem quer crescer e fugir da mediocridade.

Portanto, a nossa responsabilidade, como pessoas que acreditam ser o homem e a mulher criados para refletir a imagem de Deus, é questionar esses rótulos e crenças que só nos encorajam a colocar aquém da sua dignidade o ser humano tão capaz de aprender, ensinar e analisar o que lhe é transmitido como verdade incontestável.

Se, com a nossa consciência cristã e com responsabilidade em relação às futuras gerações, decidirmos não mais disseminá-los, há esperança de que, em lugar da rivalidade e do preconceito que ainda se percebem hoje, os homens e as mulheres, no futuro, consigam se respeitar, se admirar e aprender com suas diferenças e singularidades.

Por: Eudoxiana Canto Melo na revista O Clarim edição 66

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