Política: por que me importar?

Talvez, ao ler apenas o título, você tenha pensado em “pular” este artigo. Entendo você – andamos muito decepcionadas com o que temos presenciado. As ações mal-intencionadas no exercício de atividades públicas e aquelas que só visam ao interesse de alguns depõem contra a política, afastando pessoas que poderiam contribuir para um país mais justo.

Tentando enxergar algo de bom nos acontecimentos, estamos vivendo um momento histórico no Brasil, que pode favorecer mudanças importantes. Temos vivido dias de crise, muito mais crise política e moral do que econômica. Quantos escândalos! Quanta corrupção! Mas também, quanta possibilidade de repensar o que é a política e como nos relacionamos com ela.

Embora, normalmente, a política seja associada exclusivamente a partidos, cargos e eleições, o conceito é muito mais amplo e presente em nossa vida diária. A palavra “política” deriva da palavra grega pólis (que significa “cidade”); refere-se ao ato de cidadãos que opinam e decidem sobre a vida em comunidade. Política, em sua essência, é sinônimo de cidadania, civilidade e está, portanto, relacionada à busca do bem coletivo.

Somos seres sociais, nascemos para viver em comunidade. Para a boa convivência, precisamos de regras e normas que orientem nossas ações, seja na família, na escola, na igreja, na cidade, no país. A política está presente em todos os grupos, e é bom que esteja. Quando falamos em assuntos públicos como segurança, educação, saúde, estamos falando de política. Não tem como ser cidadão e excluir a política.

Assim, concluímos que não é necessário ser “político de carreira” para exercer a política. Viver a política é viver o coletivo. As decisões tomadas pelos cidadãos impactam a vida dos próprios cidadãos, inclusive a decisão pela omissão ou alienação. Sim, é também uma decisão! Diariamente, somos impactados por leis, acordos coletivos e outras decisões que, em algum momento, certamente, tivemos a oportunidade de contribuir, alterar, desaprovar ou aprovar.

Embora na democracia o voto seja uma excelente forma de exercer a cidadania, quando consciente e sensato, não é a única maneira de influenciarmos o governo. Podemos e devemos influenciar diariamente as comunidades onde vivemos, mantendo-nos bem informados, acompanhando o serviço dos representantes que elegemos nas eleições, fazendo o bem, defendendo a justiça social, lutando por uma sociedade mais fraterna, participando de alguma forma da vida pública sem paixão por esse ou aquele partido ou figura política.

Influência cristã

Mas, o cristão deve tentar influenciar as leis e a política? O teólogo Wayne Grudem afirma que “o cristão, de modo geral, deve ser um cidadão exemplar, buscando sempre promover o bem-estar de seu país”. Ele ainda lamenta que existem algumas ideias equivocadas sobre isso. Grudem diz que “a influência cristã expressiva no governo não é coerção, não é silêncio, não é afastar-se do processo político nem é pensar que o governo pode salvar as pessoas”.

Alderi de Souza Matos, colunista da revista Ultimato, afirma que “não é mais possível ficar indiferente ao debate político e ao processo político, porque ele produz consequências que afetam a todos”. Lembra ainda que a Escritura não autoriza uma atitude de isolamento dos cristãos, mas incentiva-os a participarem ativamente da vida de suas comunidades. Cita ainda personagens bíblicos como bons exemplos de homens e mulheres públicos, que ofereceram valiosas contribuições à sociedade nas quais viveram – José, Débora, Davi, Salomão, Josias, Daniel, Ester e Neemias.

Quem crê em Cristo Jesus não pode ter aversão à política. Precisamos proclamar Cristo em todos os lugares e abordar todos os assuntos. Devemos influenciar orando por nossos governantes e sendo submissos às autoridades estabelecidas. Podemos e devemos protestar contra o que afrontar o padrão bíblico, mas de forma sábia, sem cair em contradição agindo de forma incoerente ao que Cristo nos ensinou. Colocar todos os políticos no mesmo pacote não é maduro, não é inteligente, e nem se deve idolatrar alguns. Desejar que uma “bomba caia em Brasília” e compartilhar postagens que incentivem a violência contra os políticos também não reflete o caráter de Cristo.

Grudem nos desafia: “tente imaginar como uma nação e seu governo seriam se toda a influência cristã no governo fosse subitamente removida”. Ou ainda: “se pastores e membros de igrejas disserem: vou me calar sobre as questões morais éticas que enfrentamos como nação”.

Herdamos governos que, bem ou mal, foram alicerçados em princípios bíblicos, devido à forte influência do cristianismo no passado. Mas, até quando? Se não mudarmos a postura hoje, lamentaremos as consequências de amanhã. Os governos são reflexos do seu povo. “Permitam-me dizer por que vocês estão aqui. Vocês estão aqui para ser o sal que traz o sabor divino à terra… Se faço de vocês portadores da luz, não pensem que é para escondê-los debaixo de um balde virado. Quero posicioná-los onde todos possam vê-los” (Mt 5.13-16 – A Mensagem).

Cabe a cada um assumir a sua responsabilidade no processo e agir no tempo oportuno. Precisamos ser luz, ou, como diz Grudem, “bússola moral” neste mundo!

Fonte: Revista O Clarim edição 69 – Autora:  Lilian Gava