Leia mais: Teoria Queer

Um dos movimentos intelectuais que mais tem ganhado força ultimamente nos círculos acadêmicos e culturais é a chamada Teoria Queer. A palavra “queer” é originária do inglês e significa “estranho”. Este nome foi utilizado para designar um movimento iniciado nos Estados Unidos a partir da década de 80 e que tem como objetivo a defesa da liberdade sexual dos gays, lésbicas e transexuais. Desde então, o movimento tem influenciado fortemente várias áreas, como a filosofia, a sociologia, a literatura, as artes, a psicologia e a educação. A Teoria Queer tem ganhado bastante respeitabilidade no meio acadêmico por estar alinhada a uma das correntes mais estudadas da filosofia contemporânea: o pós-estruturalismo. Sob esta perspectiva filosófica, estão ligados importantes nomes da filosofia, como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Jacques Derrida. Talvez você não tenha ouvido falar desses nomes, mas eu lhe asseguro que, no meio universitário, principalmente nas áreas de ciências humanas, esses autores estão entre os mais pesquisados, inclusive no Brasil.

Em suma, a Teoria Queer advoga que a orientação sexual das pessoas é fruto meramente de uma construção sociocultural, não havendo uma relação necessária de causa e efeito entre o sexo (de origem biológica) e o gênero (decisão afetiva) de uma pessoa. Em outras palavras, para essa teoria, não há um vínculo objetivo entre a forma sexual do corpo da pessoa e os desejos sexuais presentes em sua mente, ficando o indivíduo completamente livre para decidir de que maneira ele deseja expressar a sua sexualidade.

Por exemplo, segundo essa teoria, uma criança deveria ser ensinada, desde a sua infância, sobre a possibilidade livre de escolher o seu gênero, ou seja, se ela gostaria de ser vista como um menino ou uma menina, ficando a cargo dela tomar essa decisão. Essa mentalidade está por trás dos movimentos como o da “ideologia de gênero” e o fatídico caso do uso nas escolas brasileiras do que se convencionou chamar de “kit gay”, que, por sua vez, tem sido muito debatido na política e na mídia nacional.

Judith Butler, uma das principais proponentes da Teoria Queer, questiona o que se convencionou chamar de “heteronormatividade”, ou seja, uma norma implícita presente em nossa civilização em que a sociedade impõe às pessoas a cultura da heterossexualidade como um padrão comportamental, desconsiderando a possibilidade de experiências de sexualidade diversas e plurais. É por isso que uma das principais bandeiras do movimento é a busca do rompimento das relações de poder existentes em nossa sociedade, que visam submeter o sujeito a um determinado modelo de sexualidade.

Uma espécie de cosmovisão

Como pode ser percebido, a Teoria Queer é o principal fundamento dos movimentos políticos pró-LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Esses movimentos estão ganhando cada vez mais adesão popular no Brasil e no mundo. No contexto brasileiro, já têm sido articulados diversos congressos, palestras e seminários, cujo objetivo é difundir a Teoria Queer.

No âmbito internacional, filmes, revistas, livros e artigos têm sido produzidos com a intenção de influenciar a cultura e oferecer um novo olhar sobre a questão da sexualidade humana. Por esse motivo, e dada a urgência e a importância das questões discutidas, os cristãos precisam estar atentos e conscientes das implicações decorrentes dessa Teoria e como ela afeta o modo de pensar das pessoas.

A Teoria Queer atua como uma espécie de cosmovisão, ou seja, uma visão de mundo embasada em pressupostos filosóficos. Todavia, podemos afirmar que essa cosmovisão está em desacordo com a perspectiva cristã, que, por sua vez, oferece uma outra visão de mundo, pautada pelos princípios bíblicos que fundamentam a fé e que regem a ética sexual.

Quando recorremos à Bíblia, percebemos que o relato da criação contido no livro de Gênesis nos revela que Deus criou homem e mulher (Gn 1.27) com identidades distintas e que, por meio dessa diferença entre o gênero masculino e feminino, Deus também cria a base natural para a união sexual (Gn 2.24). Por isso, a teologia cristã defende que existe uma norma para a sexualidade humana estabelecida pelo próprio Deus em sua criação, e que desrespeitar essa norma é cair em pecado (Lv 18.22, 20.13).

O maior problema da Teoria Queer consiste em querer apresentar uma antropologia, ou seja, uma visão de quem é o ser humano, sem levar em conta a sua origem e fonte de identidade, que se encontra única e exclusivamente no conhecimento de Deus.

No argumento apresentado por Paulo em sua carta aos Romanos, o apóstolo afirma que, ao ignorar o conhecimento de Deus, o ser humano foi entregue a uma visão equivocada de si mesmo, culminando assim na perda dos valores éticos que orientam, dentre outras coisas, a sua vida sexual (Rm 1.18-27).

Ao contrário do que pensam os teóricos Queer, não se pode negar que a sexualidade faz parte da identidade do ser humano enquanto alguém criado por Deus. Isso não é mero fruto de construção sociocultural, mas a heterossexualidade é o padrão que o próprio Criador estabeleceu para o ser humano, sendo a base para o casamento e cujo significado aponta para a união espiritual entre Deus e a Igreja (Ap 19.7-9).

Por fim, devemos entender a complexidade do tema e, por esse motivo, mantermos uma postura sensível e dialogal no que tange as discussões envolvendo o estudo da sexualidade humana, reconhecendo que essa questão deve ser vista e analisada por um prisma multidisciplinar, pois envolve vários aspectos, entre eles, o psicológico, biológico e ético. Sobretudo, não podemos nos esquecer das questões teológicas que norteiam a nossa fé e que fundamentam a nossa vida.

Por Beto de Mello é teólogo e filósofo, revista O Clarim edição 67 – págs. 21-23