Leia Mais: Nosso lugar no corpo de Cristo

Toda pessoa que rendeu sua vida a Cristo precisa descobrir o seu lugar na comunidade dos discípulos (a igreja), e envolver-se no cumprimento da missão de Deus no mundo. E para ser fiel e eficaz no cumprimento dessa tarefa, não pode fazer de qualquer modo: deve servir de acordo com o dom que recebeu (1 Pe 4.10). O papel que vamos desempenhar no corpo de Cristo e a área em que vamos servir estão intimamente relacionados com os dons que possuímos. Neste sentido, reconhecer quais são os nossos dons espirituais, o que são os dons e o real propósito deles é vital em nosso enga­jamento na missão de Deus.

De início, é necessário afirmar que dons espiri­tuais e talentos naturais são coisas diferentes. Am­bos são dados por Deus ao ser humano (Tg 1.17), mas em momentos distintos. O talento natural é dado por ocasião do ato criador. O ser humano, como imagem e semelhança de Deus, e, portanto, seu representante, recebeu a incumbência de ser corregente da Criação (Gn 1.26-28). Essa respon­sabilidade é chamada pelos teólogos de “mandato cultural”. Todo ser humano tem a responsabilida­de de desenvolver e manter o que Deus criou.

É exatamente por isso que todos nascem com algum talento natural. Esses talentos podem ser definidos como capacidades “existentes na própria natureza do indivíduo como um conjunto de ha­bilidades concedidas no ato criador, independente da fé”.1 As pessoas têm aptidões para atuarem em diferentes áreas – política, artes, lazer, educação, tecnologia, indústria, entre outros, e devem servir a Deus através dessas habilidades, dando sua par­cela de contribuição para o cuidado com o mundo criado por ele. Não é necessário ser cristão para re­ceber tais aptidões ou talentos. Todo ser humano os possui.

No que diz respeito aos dons espirituais, entre­tanto, são dados exclusivamente para cristãos, no momento da conversão (o que não significa que não se possa receber outros dons pós-conversão, 1 Co 12.31). Parece que só em caráter de exceção, algum ímpio pode ser usado com algum dom espi­ritual (Mt 7.22-23); a regra geral é que são para cris­tãos. O dom espiritual é uma capacidade dada por Deus aos cristãos para servirem no corpo de Cristo e cumprir sua missão no mundo. Em 1 Coríntios 12.4, Paulo diz que há diversidade de dons. A pa­lavra traduzida por “dons”, no original é charisma­ton, da mesma raiz da palavra “graça” (charis). Por isso, pode-se dizer que dons são dádivas gratuitas ou presentes concedidos pelo Espírito Santo aos crentes em Jesus. Ninguém pode comprar os dons.

Um dom não compete com outro

Além de dizer que os dons são diversos, o texto de 1 Coríntios 12.4 diz, também, que é o mesmo Espírito que distribui os mesmos. Ele sabe as reais necessida­des do corpo de Cristo e atua nesta diversidade de dons (1 Co 12.11). Eles não são diversos para que nos dividamos, mas para que nos ajudemos.

Em Romanos 12.6-8, encontramos os dons da profecia, do serviço, do ensino, do encorajamento, da contribuição, da liderança e da misericórdia. Em 1 Coríntios 12.8-10, os da palavra da sabedoria, palavra do conhecimento, fé, dons de curar, mila-gres, profecia, discernimento de espíritos, línguas e interpretação de línguas. Em 1 Coríntios 12.28, os de apóstolo, profeta, mestre, milagres, variedades de curas, socorros, administração, línguas. Em Efé­sios 4.11, o de apóstolo, profeta, evangelista, pastor e mestre. Já em 1 Pedro 4.10-11, são dois: falar e servir.

Percebe que nenhuma das listas de dons são iguais? Isso sugere que os autores do Novo Testa­mento não estavam pensando em uma lista fecha­da de dons. Podem existir outros que não foram mencionados. Dentre esses dons mencionados, al­guns são mais de caráter ministerial e outros, de caráter sobrenatural. É óbvio que isso não faz da pessoa que tem este ou aquele dom mais ou menos especial para Deus.

De acordo com o Novo Testamento, parece que os dons espirituais de caráter ministerial são con­tínuos. Os cristãos que os possuem são capazes de usá-los durante o curso de sua vida cristã e ad­ministram o uso (Rm 12.7; 1 Tm 4.14; 1 Co 14.37; 13.2; 1 Co 14.28). Contudo, há a ideia de que exis­tem alguns dons que não podem ser exercidos no momento em que a pessoa deseja (são os de cará­ter sobrenatural, especialmente os da lista de 1 Co 12.8-10).

Outra questão essencial ligada aos dons que não podemos menosprezar é seu propósito. A Bí­blia diz que a manifestação do Espírito é dada a

cada um para benefício comum (1 Co 12.7). Pedro diz que devemos servir uns aos outros de acordo com o dom que recebemos (1 Pe 4.10a). O exercício dos dons não é facultativo. Quando deixamos de utilizar nossos dons, todo o corpo sofre. É assim no corpo humano: quando um membro deixa de funcionar, o corpo sofre.

Ao menos um dom

Sobre o uso dos dons, 1 Coríntios 12.5 fala so­bre a existência de uma “diversidade de ministérios” (v.5). Temos, no original, a palavra grega diakonion, que expressa a ideia de serviço. Ministério, à luz deste texto, é uma área de serviço, dentro do corpo de Cristo que atuamos, de acordo com o dom que recebemos. Que serviços, ministérios ou áreas são estas? Ensino, juventude, crianças, mulheres, músi­ca, pessoas carentes, entre outros.

Precisamos levar a sério esta questão e procu­rar descobrir em que ministério Deus quer que o sirvamos na igreja local, através dos dons que re­cebemos. Em 1 Coríntios 12 ainda lemos sobre a “variedade de operações” (v.6). No original temos a palavra energématon, significando energia, obras ou atividades. As “operações” são trabalhos, ações e realizações concretas em benefício de outras pes­soas.2 São as múltiplas atividades que podem ser realizadas dentro de um ministério, de acordo com os dons que recebemos.

A igreja é o corpo de Cristo. A comunidade de discípulos de Jesus é a testemunha do reino em missão no mundo. Cada cristão recebe a capacita­ção divina para contribuir no cumprimento dessa missão: “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para um benefício comum” (1 Co 12.7 – grifo do autor). Esta é uma certeza de que todo cristão pode ter: ele possui algum dom espiritual. O Espírito o distribui a “cada um”. Isto significa que “todos os crentes necessariamente pos­suem pelo menos um dom do Espírito”.

Os dons espirituais não são dados a uma “casta religiosa especial”. Não é para apenas um grupo de homens e mulhe­res proeminentes. Esta ideia fica mais evidente ainda quan­do Paulo usa o corpo humano como analogia da igreja. Um cor­po possui uma diversidade de membros, com funções diferen­tes. Todo membro do corpo tem uma função. É impossível fazer parte do corpo de Cristo sem ser membro e, portanto, é impossí­vel ser crente sem ter ao menos um dom.

Todos têm valor e lugar no corpo de Cristo e devem ter cons­ciência disso. É importante se perguntar: como meu dom pode ser útil para o cumprimento da missão de Deus? Deus está em missão no mundo. Ele está res­taurando o universo dos efeitos do pecado. E nós contribuímos nesta missão. Administre cor­retamente os dons que recebeu, para que a graça de Deus seja vista por meio da sua vida!

Se ainda não tem certeza de quais são seus dons e em que mi­nistério deve atuar, ore a Deus; converse com um cristão mais experiente na igreja para que ele lhe ajude. Se desejar pode fazer também um teste de dons.5 Atra­vés de algumas perguntas indu­tivas, estes testes podem nos aju­dar a descobrir nossos dons. E o principal: esteja disponível para as oportunidades de serviço que Deus coloca à sua frente!

Por Pastor Eleilton Freitas na edição 68 de O Clarim