Leia Mais: A cruz foi por você!

A mulher que Deus molda não nasce da visão moderna do mundo, mas é fruto da graça que jorra do madeiro, cujo líquido precioso vem dos cravos, dos espinhos e do chicote romano

E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena. (Jo 19.25)

Enfrentar o horror sozinho, gemer sem socorro, bradar no vazio. No Antigo Testamento, o sacerdote conduzia o bode da expiação ao extremo do deserto, fazia as proclamações sobre a cabeça do animal (“os pecados do povo estejam sobre ti!”) e o soltava sem água, sem comida, sem chance de voltar. Sozinhos: ele, a areia e o sol. “Corre bode, corre!” O animal se lançava no deserto profundo. Movia-se, agitava-se, berrava…É o pecado, é o pecado. A cada hora o pavor maior, a solidão absoluta, a busca inútil. Quer oxigênio, num instinto insólito. Ofegante, briga até não mais respirar. O bode carregou o pecado. O mal foi banido. O povo de Israel ficava aliviado!

O Portador do pecado está só na cruz. Foi levado ao extremo do castigo: “os pecados do mundo estejam sobre Ti!” Ele, a cruz e o sol escaldante. Jesus fala, ora, pede água… Nenhuma interlocução, nenhuma resposta, apenas fel. Braços e pernas, mãos e pés, cabeça e tronco em posições desumanas e cruéis. Olhar embaçado por sangue. Desidratação acelerada. Luta feroz por oxigênio! Arritmia! O Filho foi abandonado. O coração do Pai dispara. É o pecado, é o pecado. “Corre Cordeiro, corre!” Ele consegue um último movimento vocal: “Está consumado!” . Vê-se, então, o Cordeiro quieto, imóvel, pendurado no madeiro. Acabou! A justiça de Deus foi satisfeita. O pecado, o inferno e a morte estão destruídos! O pecador está aliviado, liberto, salvo!

Maria ao pé da cruz

Em baixo, bem ao pé da cruz, está Maria, a mãe de Jesus, acompanhada por Salomé e Maria Madalena. João não registra uma, ao menos uma palavra de Maria. A mulher que poderia dizer tudo permanece calada. Seu silêncio é o testemunho mais vigoroso de que seu filho é, de fato, o Filho de Deus, é Deus, é o Messias, o Salvador do mundo. Ela o ama e o honra até o fim. Por dentro, porém, sua alma está despedaçada, pois sua mente está a viajar no tempo. A voz do velho Simeão reverbera em seu coração: “O menino será Rei das nações!”. E a palavra fatal para ela: “Também uma espada traspassará a tua própria alma”. Cumpria-se ali, no Monte da Caveira, a profecia divina.

Trinta anos depois, a espada atravessou o coração de Maria. Seu filho fora levantado da terra. Os olhos da mãe se erguem e ela vê a testa, na qual dera o primeiro beijo, agora espetada por espinhos. As mãos, que tanto apertara, pregadas estão na cruz. Os pés, que treinara para dar os primeiros passos, cravados estão no madeiro. A boca, que sugara o seu leite, está seca. O menino, que aos 12 anos dera aula para doutores, está morto, aos 33. A mãe sente o peso da separação. Uma separação clarificada no dia em que João Batista declarou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” Desde então, Jesus fechou a carpintaria e disse: “Me cumpria estar na casa de meu Pai” (Lc 2.49). Maria guardava esse futuro doloroso no coração.

A crucificação pública, à exceção de João, deixou todos os discípulos envergonhados. Maria, porém, estava ali, com a espada atravessada no coração. Viu o filho lutar por oxigênio, ouviu-o pedir água, escutou seu pedido de ajuda a Deus Pai e o viu dar o último suspiro. Permaneceu ali, a mirar o filho morto. Nenhuma vergonha da crucificação pública, nenhum murmúrio, nenhuma ameaça às autoridades executoras. Só a alma sangrando, explodindo de dor. Ver Maria assim, bem próxima da cruz, tem o poder de nos tornar o sacrifício de Jesus mais real e indispensável.

Salomé ao pé da cruz

Não menos real é o exemplo de fé demonstrado por Salomé, que apesar de ter tido o seu pedido negado por Jesus, serviu-o até o fim. Sem entender que o reino de Cristo é sacrificial, ela havia pedido a Jesus que seus dois filhos se assentassem, um à direita e o outro à esquerda dele (Mt 20.21). Até o “não” de Jesus foi-lhe favorável! A cruz de Cristo sempre favorece, a qualquer pessoa, em qualquer tempo, independente das circunstâncias. Todavia, faz-se necessário acompanhá-lo até o fim, sem resquícios de vergonha de ser salvo pelo Deus que morre de forma vil.

Maria Madalena ao pé da cruz

Vale destacar o modelo de fé deixado por Maria Madalena, mulher de quem Jesus expulsou sete demônios. Você, que lê, é provável que não deva saber o que é isso. Quem escreve está seguro em Cristo de que nunca saberá. Sete demônios! O Deus da cruz a libertou das garras de Satanás. Deu-lhe nova vida, novas esperanças. O Jesus crucificado lhe deu ainda uma das experiências mais gloriosas de que se tem notícia: ser a primeira pessoa a ver o Jesus ressurreto! (Jo 20.11-18). Não sem antes tê-la embaixo da cruz. Lá esteve Madalena: ao pé da cruz! Foi com Jesus, até ao fim. Mulher agarrada à cruz! Decidida a estar com Jesus na morte e na vida, como afirma Paulo: “se morrermos com ele, também com ele viveremos” (II Tm 2.11).

Você ao pé da cruz

O mundo de hoje espera que você, mulher, consiga equilibrar os diversos papéis que as conquistas modernas lhe proporcionaram. Você tem de ser mãe, filha, irmã, profissional, dona de casa, estudante, gestora, subordinada… O mundo exige que você seja incansável, inesgotável. Você é a nova versão dos super-heróis. A “Mulher Maravilha”. Você não pode chorar, não pode falhar. A mulher que não sabe o que decidir e o que fazer está sendo banida da sociedade. O mundo espera de você o que se espera de Deus: perfeição.

Contudo, a mulher que Deus espera para si não nasce da visão moderna do mundo, mas da cruz de Jesus. Ela é fruto da graça que jorra do madeiro, cujo líquido precioso vem dos cravos, dos espinhos e do chicote romano. Essa mulher é fruto da fé no Filho de Deus, o que a faz ser uma pessoa segura, inteligente, produtiva, íntegra, competente, integrada e interessada pela vida, pelas pessoas, pelos dilemas sociais e pelas questões complexas do mundo. Sua inteligência e sabedoria vem de sua relação estreita com o Jesus crucificado e ressurreto, de quem não se envergonha. Tem consciência de que o drama da cruz lhe diz respeito e, por meio dele, achou graça diante de Deus.

A mulher que é refeita na cruz arrisca tudo para ficar com Jesus. É capaz de grandes sofrimentos pela causa de Cristo. Como Maria, Salomé e Maria Madalena, vai até a cruz, vai até o túmulo, para então, poder ver o esplendor da ressurreição! A mulher iluminada pela cruz sabe que uma coisa é fazer sucesso entre os homens e outra, diferente e melhor, é vencer os poderes domundo tenebroso pelo poder de Jesus.

Mulheres forjadas na cruz seguem Jesus não apenas quando ele cura suas enfermidades, expulsa seus demônios e ressuscita mortos ante seus olhos, mas, sobretudo, seguem-no até o calvário, no qual o inimigo dá a impressão de ter sido vitorioso. Apenas impressão. Nessas horas, mulheres comprometidas com Jesus se mostram inabaláveis, tamanho o amor que sentem por aquele que as amou na cruz, de maneira incondicional.

Elas sabem que foi Cristo Jesus quem “nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz,e, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz”. (Cl 1.13-15 – NVI)

“Corre Cordeiro, corre!”

Por Pastor José Lima de Farias Filho na edição 62 de O Clarim