Bullying? Como assim?

O problema deve ser tratado de forma pedagógica e, sobretudo, devemos levar a Deus as situações vivenciadas por nossos filhos

“Alguém precisa tomar uma providência! Tenho de reclamar no colégio!”

Estas foram minhas palavras de indignação, após o relato de meu filho que, apavorado, argumentava que seria pior se eu tentasse falar com alguém de seu colégio sobre as “brincadeiras” e ofensas que sofria, já há algum tempo, feitas por seus “colegas” de classe. Situação que o estava incomodando a ponto de interferir em suas notas e até em seu comportamento relacional com a família e amigos, tornando-o cada vez mais apático, introvertido e sem vontade de estudar. Entendi, então, o motivo de tantas desculpas para não comparecer às aulas!

Passada a indignação, resolvi ouvi-lo com calma, para transmitir a certeza de que não faria nada que o constrangesse ainda mais. Percebi que, se insistisse em ir ao colégio, antes de lhe dar a segurança que precisava, poderia perder sua confiança e, a partir daí, ele poderia se recusar a me contar outros “acontecimentos” semelhantes futuros, o que não seria nada bom.

Pelo que me descreveu, vi que estava passando “maus bocados” como alvo de brincadeiras inadequadas, maldosas, pejorativas e violentas! Era um colégio novo, pois havia sido transferido na 7ª série do Ensino Fundamental, após meu marido e eu avaliarmos que estaríamos optando por uma instituição “melhor” e com mais opções de ensino que o anterior. Somente após esse episódio, segundo o psicólogo do próprio colégio, soube que a série é péssima para mudanças, pois as turmas já estão entrosadas e, nessa idade, não costumam ser nada receptivas, já que nem entre eles são tolerantes.

Procurei refletir melhor sobre o que ouvi, choramos e oramos juntos e, só depois de me controlar, pude acalmá-lo. Então, fui buscar explicações plausíveis, se é que elas existiam, para aquela situação. Descobri que o que estava acontecendo é algo bem comum em todas as escolas e até em “outros ambientes”. Apesar de não haver uma palavra equivalente em português, é um “evento” que tem nome e é famoso: bullying!

De forma simplória, entendi que as “brincadeiras de mau gosto” de minha época escolar tomaram formas muito mais inconvenientes e agressivas, causando transtornos sérios.

 

Tendências suicidas

Ao pesquisar, encontrei vários artigos e sites, entre eles o http://www.bullying.org, do qual retirei o seguinte conceito:

“O termo bullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder. Portanto, os atos repetidos entre iguais (estudantes) e o desequilíbrio de poder são as características essenciais, que tornam possível a intimidação da vítima.

Por não existir uma palavra na língua portuguesa capaz de expressar todas as situações de bullying possíveis, a lista a seguir relaciona algumas ações que podem estar presentes: colocar apelidos, fazer sofrer, agredir, ofender, discriminar, bater, zoar, excluir, isolar, empurrar, ignorar, ferir, intimidar, roubar, humilhar, perseguir, quebrar pertences, aterrorizar, amedrontar, tiranizar e dominar.”

A expressão tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Quem primeiro relacionou a palavra ao fenômeno foi Dan Olweus, professor da Universidade da Noruega. Ao pesquisar as tendências suicidas entre adolescentes, ele descobriu que a maioria desses jovens havia sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, o bullying era um mal a se combater.

 

Diálogos e oração

Na carta de Paulo aos Filipenses 4, versículos 6-9, encontramos a seguinte orientação:

“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus. Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco.”

É importante estarmos atentos para que o bullying não aconteça na igreja! Os pais e os professores do Departamento Infantojuvenil devem observar o comportamento dos alunos e, se a prática ocorrer, eliminá-la com aplicação de estudos bíblicos e participação ativa dos pais em seus lares. Sugiro a leitura e utilização de um estudo produzido pela APEC (Aliança Pró Evangelização de Crianças) em sua revista O Evangelista, edições 211, 212 e 213, que traz informações completas, baseadas na vida de José.

Quanto ao meu filho, fomos ao colégio, pedimos toda a discrição possível, para que ele não sofresse ainda mais represálias, e a situação foi tratada de maneira pedagógica, com os pais dos alunos envolvidos informados e orientados. Em casa, aumentou nosso diálogo e seguimos em oração.

Apresentamos todas as nossas aflições a Deus e, não raras vezes, precisei chorar longe de meu filho para não o fragilizar ainda mais. O certo é que todos nos fortalecemos com o ocorrido. Lembro-me com alegria do dia, já próximo ao final do ano, quando meu filho relatou que havia conversado com o colega, que lhe havia pedido desculpas. Glórias a Deus! Oramos e choramos de novo, de alegria! A experiência nos fez crescer muito, tanto em espírito quanto como uma família que ora unida e permanece unida!

 

Vítima ou agressor

É importante saber se seu filho é vítima ou pratica bullying. O Centro Multiprofissional de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes) organizou dicas para os pais.

 

Como saber se seu filho é vítima?

  • Apresenta, com frequência, desculpas para faltar às aulas ou indisposições como dores de cabeça, de estômago, diarreias, vômitos antes de ir à escola.
  • Pede para mudar de sala ou de escola, sem apresentar motivos convincentes.
  • Apresenta desmotivação com os estudos, queda do rendimento escolar e dificuldades de concentração e aprendizagem.
  • Regressa das aulas: irritado, triste, machucado, com roupas ou materiais sujos ou danificados.
  • Vive isolado em seu mundo e não quer contato com outras pessoas que não façam parte da família.

 

O que fazer?

  • Observe qualquer mudança no comportamento.
  • Estimule para que fale sobre o seu dia a dia na escola.
  • Não culpe a criança pela vitimização sofrida.
  • Transforme seu lar em um local de refúgio e segurança.
  • Valorize os aspectos positivos da criança e converse sobre suas dificuldades pessoais e escolares.
  • Procure ajuda psicológica e de profissionais especializados.

 

Como saber se seu filho pratica bullying?

  • Apresenta distanciamento e falta de adaptação aos objetivos escolares.
  • Volta da escola com ar de superioridade, exteriorizando ou tentando impor sua autoridade sobre alguém.
  • Apresenta aspecto e/ou atitudes irritadiças, mostrando-se intolerante frente a qualquer situação ou aos diferentes aspectos das pessoas.
  • Costuma resolver seus problemas valendo-se de força física e/ou psicológica.
  • Porta objetos ou dinheiro sem justificar sua origem.

 

O que fazer?

  • Converse, objetivando encontrar os motivos que o levam a agir desta maneira.
  • Reflita sobre o modelo educativo que você está oferecendo.
  • Evite bater ou aplicar castigos severos em demasia. Isso só poderá promover raiva e ressentimentos.
  • Procure profissionais que possam auxiliar a lidar com esse tipo de comportamento, além da direção da escola.
  • Incentive a mudança de atitudes. Um bom começo é pedir desculpas e deixar a vítima em paz.
  • Não ignore o fato ou ache desculpas para suas atitudes.

 

Por: Elis Regina Lima de Souza na edição da Revista O Clarim – edição 63

 

 

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