Leia mais: O exercício da mente

Presenciamos em nossos dias uma crescente preocupação com a saúde e o bem-estar físico, o que é algo extremamente positivo. Uma enxurrada de livros, programas, sites, blogs e canais no YouTube abordam o tema e nos mostram o quanto se tornou rentável a exploração desse assunto em nossa sociedade. Todos querem ser saudáveis.

O que destacamos com lamento, no entanto, é que a busca por uma espiritualidade saudável entre nós, cristãos, parece não ter acompanhado o crescente interesse pela saúde física. Muitos são os cristãos que se exercitam regularmente, que possuem uma dieta balanceada e hábitos saudáveis, mas que estão terrivelmente doentes, espiritualmente falando. Ora, é certo que precisamos não somente de saúde física, mas também espiritual. Assim, do mesmo modo que os para nossa saúde, as práticas devocionais são fundamentais para uma espiritualidade saudável. Por isso, nesta seção, temos procurado abordar exercícios espirituais que fazem bem para a alma. Desta vez, ressaltamos a importância do exercício da mente.

Se, em um exercício físico treinamos o corpo, no exercício espiritual treinamos e disciplinamos a mente cristã. Tal exercício consiste basicamente em: disciplinar nossos pensamentos diários por meio de um controle atento e cuidadoso daquilo que vemos e ouvimos.

Essa prática deve ser constante, ao contrário dos exercícios físicos que exigem de nós apenas uma parte de nosso tempo diário. Sobre o exercício da mente é provável que não tenhamos um texto tão claro quanto o que encontramos em Filipenses 4.8, escrito pelo apóstolo Paulo aos cristãos que moravam na cidade de Filipos: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas” (NVI).

O que o apóstolo nos oferece nessa porção das Escrituras é um filtro ou critério pelo qual deve passar tudo o que ocupa nossos pensamentos. A saúde espiritual do cristão depende inexoravelmente daquilo que ele alimenta em sua mente em todo o tempo. A grande questão a ser levantada é a seguinte: como pensar apenas no que é verdadeiro, nobre, correto, puro, amável, de boa fama, excelente e digno de louvor? Como disciplinar a mente a ponto de possuir este filtro de pensamentos? Para muitos, cuja mente está abarrotada de pensamentos ímpios, tal possibilidade inexiste. Contudo, mesmo tendo uma natureza pecaminosa como ainda possuímos, podemos sim exercitar nossa mente de acordo com o filtro de Filipenses 4.8 – caso contrário, seria ilógico o apóstolo ter registrado um mandamento que não pudesse ser obedecido e vivido por seus leitores.

Colhemos o que plantamos

O texto bíblico que nos ajuda a entender como podemos exercitar nossa mente disciplinando nossos pensamentos é Gálatas 5. 22; 6. 9. Este texto, escrito pelo mesmo apóstolo, para os cristãos da Galácia, nos apresenta o método pelo qual podemos exercitar nossa mente cristã disciplinando nossos pensamentos, constantemente.

O contexto é a abordagem paulina sobre as obras da carne (imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias etc.) e o fruto do Espírito Santo (amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio).

Se, no capítulo 5, Paulo fala sobre o fruto do Espírito Santo, no capítulo 6, ele fala sobre “semear” para que tal fruto possa florescer em nossas vidas. Ele explica: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna” (Gl 6. 7,8).

Colhemos o que plantamos, diz Paulo. Todos sabem que não se colhe alface se foram plantados tomates. Assim também ninguém colhe santidade, se plantou pensamentos carnais.

Segundo a análise do estudioso bíblico John Stott , em seu comentário à carta aos Gálatas, neste texto, o apóstolo compara nossa personalidade com um campo onde estamos semeando todos os dias. As sementes que plantamos a todo o momento em nossa mente e coração são todas as coisas que ouvimos, vemos, fazemos, bem como todas as experiências que temos.

Isso inclui nossas companhias, as amizades que cultivamos, a literatura que lemos, os filmes que assistimos no cinema ou na televisão, os vídeos do YouTube, as páginas dos sites, blogs e redes sociais que acessamos, o tipo de lazer com que preenchemos nosso tempo livre, o tipo de música que escutamos e tudo o que ocupa nosso interesse, absorve nossa energia e domina nossa mente.

A razão é que, em todas essas atividades (até mesmo as mais banais), estamos lançando sementes “boas” ou “más”. Segundo Paulo, haveremos de colher de acordo com o que e onde semeamos.

Reflita do seguinte modo: se você ocupa sua mente e seu tempo com futilidades, seja na vida ou na internet ou de qualquer outro modo, como serão seus pensamentos?

Certamente, fúteis. Se você gasta seu tempo com programas televisivos, vídeos, filmes, sites, páginas na internet, conversas ou amizades cujo conteúdo é imoral e promíscuo, o que você colherá?

Obviamente, pensamentos igualmente imorais e promíscuos. Entendeu? Em suma, grande parte da nossa dificuldade em obedecer a Deus em nossa mente reside em nossa imperícia em conseguir plantar diariamente em nós boas sementes. Somos carnais porque plantamos na carne constantemente e, dessa forma, dificilmente teremos uma espiritualidade sadia e bíblica.

Então, reflitamos de outro modo: quando lemos as Escrituras diariamente, devotando tempo à oração e reflexão, o que estamos fazendo? Certamente, plantando boas sementes. Quando lemos bons livros, cultivamos amizades saudáveis, vamos à igreja regularmente e nos engajamos em suas atividades, ajudamos ou visitamos pessoas que precisam de algo, acessamos bons conteúdos, estamos, seguramente, plantando sementes que o Espírito Santo poderá usar para fazer florescer em nós o seu fruto, ou seja, um caráter semelhante ao de Jesus.

Dito de outro modo, o que a palavra de Deus está nos ensinando é que exercitar espiritualmente nossa mente e disciplinar nossos pensamentos, envolve uma administração criteriosa daquilo que permitimos que chegue à nossa mente por meio daquilo que vemos e ouvimos. É certamente um exercício árduo, mas recompensador. “Quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna”, diz o apóstolo (Gl 6.8).

E aí, vamos exercitar a mente?

Por: Kássio Lopes na Edição 66 de O Clarim