Finados – Saudades de alguém que não está mais aqui

O dia de finados é um daqueles dias em que nos lembramos de uma verdade indigesta, mas irremediável para todos nós: que todos morrem, que ninguém está imune a esta experiência terrível. Pensar na morte não é comum na pós-modernidade. Nós fugimos de assuntos relacionados a ela. São temas “muito para baixo”, dizemos. De fato, pensamos pouco na morte.

Um feriado como este, porém, nos faz lembrar dela novamente. Sim: todos morremos. Não importa o quanto se lute contra, nem o quanto bravo se é, este é um evento inexorável da vida: enquanto caminharmos sob o solo desse chão, a morte sempre estará à espreita nos aguardando em uma das curvas de nosso curto caminho.

Não é errado temermos a morte. Afinal, ela não fazia parte do plano original de Deus para suas criaturas. A morte é uma intromissão no bom mundo de Deus. Por isso, toda a repulsa humana por ela é de certa forma justificável. Todos reagem de uma maneira peculiar diante da morte. Uns a aceitam; outros não. Woody Allen, famoso cineasta americano, por exemplo, demonstrou com humor todo o seu pavor de morrer ao dizer: “Não é que eu tenha medo da morte. Eu apenas não quero estar lá quando isso acontecer”.

Já o Deão da Catedral de São Paulo, na Inglaterra, no século 17, John Donne, parece que reagiu de maneira diferente à morte. Em plena peste bubônica, confinado em uma cama em razão dessa doença, escreveu no intuito de entender o dilema da morte. De início, sua atitude foi a de total desespero e desesperança. No entanto, mais tarde sua reflexão o levou a descansar em Deus mesmo diante desse terrível mal. Ele pode escrever depois de algum tempo:

 

Eu pequei por temer que ao chegar ao meu fim

Na última remada eu vá morrer no cais.

Mas jura-me por ti que teu Filho então sim

Brilhará como agora e sempre muito mais.

E ao chegares ao fim, então terás o fim,

Pois já não temo mais[1].

 

Parece mesmo que toda reflexão sob a ótica cristã a respeito da morte finda com esta constatação: não há porque temer.  Isso se deve à certeza que os cristãos têm de que, para eles, a morte já não é o ponto final. Ela é apenas um lapso em nossa jornada espiritual; uma porta que se abre para a eternidade; uma ponte pela qual passaremos para chegar ao outro lado da margem dessa existência. Essa esperança, no entanto, não nos faz insensíveis e imunes à dor causada pela morte.

Quando nos lembramos daqueles que amamos e que se foram nossos corações enchem-se de saudade. Sentimos o vazio, a ausência, a perda. Choramos. Entristecemo-nos. A saudade é uma sensação de ausência e vazio; é a percepção de que algo está faltando; e, realmente está, ou seja, estamos sem aqueles que tanto amamos – familiares, irmãos e irmãs em Cristo, amigos que se foram. Não tem jeito. Diante da irremediável morte o que resta é a saudade de alguém que não está mais aqui. Os olhos ficam marejados. O coração aperta.

Mas acredite: a tristeza é natural. O próprio Jesus chorou quando seu amigo Lázaro morreu. Aliás, antes de morrer ele mesmo chorou no Getsêmani. Porém, a promessa que temos diante da tristeza e da saudade daqueles que não estão mais conosco é a de que, no regresso de nosso Senhor Jesus Cristo todos seremos ressuscitados!

A ressurreição nos traz a gloriosa certeza de que as lágrimas do sofrimento um dia darão espaço à alegria. Os olhos de Maria Madalena estavam marejados de lágrimas por ocasião da morte de Jesus – mas estas lágrimas duraram pouco, pois ele ressuscitou. Um dia, a semelhança de Maria Madalena, quando virmos a Cristo ressuscitado as lágrimas dos nossos olhos também serão enxugadas. Pense em tudo que lhe causa dor e sofrimento. Tudo que lhe faz chorar. Pois bem, quando estivermos diante de Jesus ressuscitado, nada disso existirá mais.

Sabe por que Jesus mostrou aos seus discípulos suas cicatrizes após ressuscitar? Ele estava dizendo: “Vocês se lembram da dor e do sofrimento que enfrentei? Vocês se lembram da coroa de espinhos? Vocês se lembram dos pregos sendo fincados em minhas mãos e pés? Vocês se lembram da lança me ultrapassando? Vocês se lembram daquelas feridas? Pois é, hoje elas não passam de cicatrizes”.

Sim, um dia, todas as nossas feridas que hoje nos trazem dor não passarão de cicatrizes. Toda a saudade dará espaço ao reencontro. A ausência será substituída pela presença daqueles que morreram em Cristo. Finalmente a tristeza acabará!

[1] Citado no livro Alma Sobrevivente, de Philip Yancey.

Por: Kássio Lopes casado com Lilian Pimenta, Bacharel em Teologia, é pastor na igreja em parque Edu Chaves e auxilia no departamento de educação.