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Você já foi a um parque de diversões, desses com montanha-russa, carrossel e roda-gigante? Em minha adolescência, de vez em quando, montava-se um parque assim em minha cidade. Nunca fui muito radical, ainda que já tenha andado em montanha-russa e descido naquele elevador maluco de alguns parques (aliás, nunca mais faço isso!). Mas, voltando ao parque da minha adolescência, lembro-me de um brinquedo que me desafiava: chamava-se Enterprise e era parecido com uma roda gigante.

Você entrava numa cabine, colocava o cinto de segurança sobre os ombros e depois o brinquedo girava, em seu próprio eixo, em alta velocidade, deixando você de ponta cabeça no ponto mais alto da circunferência.

Fui várias vezes ao parque antes de decidir entrar no Enterprise. De qualquer lugar do parque, ele me encarava e eu fugia. Até que um dia parei, fiquei olhando as pessoas e percebi que a maioria entrava sorrindo, outras amedrontadas, mas, no geral, todas saíam felizes. Foi suficiente: “se ninguém se acidentou, não vai acontecer comigo, vou entrar!”. Talvez hoje não entraria nele, mas na adolescência, desafiar limites é quase um imperativo, seja para os mais contidos, como eu, ou para os mais ousados.

Hoje, parques de diversão são exatamente isso para muitos: pura diversão e nada desafiadores. Os limites atuais, para um adolescente, aumentaram: quem bebe mais, quem dirige em mais alta velocidade, quem comete humilhações físicas e morais entre “amigos” para demonstrar coragem e, os adeptos de jogos virtuais, que têm castigos insanos para os perdedores.

Foi em um desses castigos de jogos on-line que um garoto de 13 anos, por ter perdido a partida, se submeteu a amarrar uma corda no pescoço e “brincar” de chocking game (ou jogo da asfixia), em outubro de 2016. Pelo que a imprensa divulgou, como no Portal G1, não foi a primeira vez que ele fez isso, mas essa foi fatal. Ele morreu menos de 24 horas depois em um hospital em São Vicente (SP). Parece que, ao fazer isso, a pessoa sente uma euforia e chega a desmaiar, mas a prática pode levar a óbito ou a sérias sequelas por falta de oxigênio no cérebro. Agora, vale a pergunta: por que adolescentes aceitam esse tipo de desafio? Podemos, como pais, pastores ou professores de jovens e adolescentes adotar algum tipo de intervenção para proteger nossos queridos?

Em primeiro lugar, é válido refletir sobre a essência do adolescente: é um tempo de desafios e de busca da própria identidade. E, é bom que se diga, isso é importante! O desafio é fundamental para o crescimento e o amadurecimento do garoto e da garota. Sem a necessária coragem, adolescentes se tornam jovens adultos infantilizados. Em segundo lugar, precisamos distinguir entre coragem e insensatez, pois são diferentes e com resultados opostos.

Coragem X prudência

Pesquisadores, sociólogos e líderes de ministérios jovens têm percebido que vivemos em uma geração que já não consegue diferenciar claramente o certo, do errado, a verdade da mentira, a coragem da insensatez. A confusão dessa geração tem levado muitos garotos e garotas a ultrapassarem os limites que atentam contra a própria vida. Talvez essa incapacidade de reconhecer as coisas como são, de verdade, leva alguns jovens a aceitarem esses desafios.

Mais importante do que constatar essa realidade, o que podemos fazer?

Paulo orienta o jovem pastor Tito a ter uma atitude com a moçada: “encoraje os jovens a serem prudentes” (Tt 2.6 – NVI). Perceba a aparente oposição: coragem X prudência. A sabedoria da revelação é maravilhosa, pois o texto diz que precisamos encorajar nossos jovens. Eles precisam se sentir desafiados a viver para Deus, a desafiar seus limites na presença de Cristo, entendendo que viver como cristão é o maior desafio que podem encarar. Para aceitar esse desafio é necessário prudência. Em outras traduções, lemos “moderação” ou “critério”. A ideia é que o jovem precisa aprender a pensar, medir consequências e valorizar o dom da vida que recebeu em cada decisão.

Enfim, será sempre necessário estar atento às amizades, aos jogos, aos períodos a sós e buscar se reencontrar com o adolescente. Para casos extremos, em que pais e filhos se tornaram estranhos dentro da mesma casa, a oração pela proteção de Deus é o primeiro passo. Mas, seja na tentativa de restabelecer o diálogo ou na relação saudável que pais e líderes mantêm com adolescentes, é fundamental aceitar o conselho de Paulo: encoraje-os à reflexão, desafie o jovem a ser criterioso em suas decisões, ajude-o a enxergar o bem e a rejeitar o mal, não somente com ordens do tipo “não toque

Eles precisam se sentir desafiados a viver para Deus, a desafiar seus limites na presença de Cristo, entendendo que viver como cristão é o maior desafio que podem encarar. ou não faça” (ainda que, por vezes, elas sejam necessárias), mas desafiando a criticar, a refletir, a pensar criteriosamente, a agir com a mente e não com a emoção, ou ainda, na pressão de amigos.

Além disso, que a sua própria vida reflita o quanto é desafiador viver para Deus. Que tais desafios de nossa época sejam reconhecidos como verdadeiramente são: insanidades. Que Deus, por meio de seu Espírito Santo levante uma geração para chocar o mundo com a sua Palavra e a coragem de viver para ele! Essa deve ser a nossa oração pelos nossos adolescentes, afinal, não há maior desafio do que esse.

Fonte: Revista O Clarim Edição 68 – Págs 71-72